Tem certas coisas que só acontecem em filme, novela, seriado de ação. Algumas outras acontecem com pessoas distantes, com algum conhecido de um amigo, mas nunca com a gente. Mas dessa vez...
Há umas duas semanas atrás, eu esperando pelo motorista da empresa, que naquele momento já estava atrasado, presenciei a cena de cinema, aonde quatro homens armados com fuzis e sub-metralhadoras, pediram para o motorista sair do carro, e simplesmente atearam fogo no veículo, que queimou por completo e ainda explodiu por conta do cilindro de gás embutido no porta malas. Tudo a cerca de 20 metros do meu campo de visão. O que se seguiu foi aquela agitação natural de curiosos, a chegada do corpo de bombeiros e da polícia militar, e pronto, cheguei atrasado no trabalho.
O incrível é que a reação da opinião pública e da imprensa é de que aquilo se tornou normal no cotidiano da cidade. As pessoas não demonstram medo, nem indignação, apenas resignação e indiferença.
Aos que vivem fora do Rio de Janeiro, uma sensação de alívio somada a uma perplexidade. Talvez não façam idéia do que realmente se trata. A violência no Rio já é taxada como algo corriqueiro, já é característica permanente da região, infelizmente.
Por mais que o problema do tráfico de drogas, dito e comprovado principal fonte de violência urbana deste país, tenha recentemente sido exposto pelos dois sucessos de bilheteria “Tropa de Elite 1 e 2”, tudo ali ainda se trata de ficção. Ficção baseada em realidade, é fato, mas o buraco é muito mais embaixo “no asfalto”, no dia-a-dia mesmo.
O programa de segurança do Estado, com a implantação das UPPs dentro das favelas e comunidades comandadas pelo crime, é praticamente um plano de estratégia de guerra. A idéia que é mais simples do que parece no papel e consiste em tomada de território, é complicadíssima na prática. Você expulsa a facção criminosa do seu local de atuação, mas não prende todos os suspeitos, não identifica os mentores, não realoca estas pessoas, não há plano consistente para a desarticulação do sistema criminal.
A conseqüência disso é o que tem sido mostrado no noticiário do Brasil e provavelmente do Mundo todo nestas duas últimas semanas. Imagens como a de veículos de passeio, ônibus e vans queimadas, construções alvejadas a balas de alto calibre são comuns nos locais onde há guerras permanentes como no Oriente Médio.
Essa violência propositalmente exposta e chamativa é um claro sinal de resposta do crime ao plano de segurança pública estadual adotada no Rio de Janeiro. Até aonde isso vai é uma incógnita.
O tema é um dos mais complexos do país, e acredito estar longe de uma solução. A polícia infelizmente demonstra ser mal preparada e mal remunerada em todos os seus degraus de hierarquia, mal exemplificada por uma “famosa” política corruptível.
Se instalar à força num território desconhecido e hostil, como uma comunidade dominada pelo tráfico, achando que resolveram o problema parece um equívoco.
Qualquer intenção e movimentação de paz é válida, e somos esperançosos quanto a isso. Acontece que ações precipitadas e pouco inteligentes do tipo para “Inglês ver”, só alimentam um barril de pólvora que explode aos poucos a cada dia.
E quem conhece um pouco de Rio de Janeiro, sabe que a tendência é piorar, e em breve não me espantaria em ver a Força Nacional nas ruas, como já vi algumas vezes.
Bom café...