quinta-feira, 29 de abril de 2010

A língua brasileira

Você sabe quantos idiomas são falados hoje na União Européia? São 23 oficiais, eu disse, oficiais. Sabe-se que há regiões com seus próprios dialetos e formas de comunicação alternativas. Agora imagine a extensão territorial da Europa Ocidental, excluindo a Rússia e tudo o que tiver a Leste. Temos um espaço consideravelmente menor que o território brasileiro.
O nosso país têm características e dimensões continentais. Imagine então que toda esta população utiliza um só idioma, o Português.
Chegamos ao ponto chave deste texto. As diferentes expressões e sentidos dados à língua portuguesa em diferentes pontos do Brasil, fazem com que crie-se praticamente novas formas de comunicação ao redor do vasto Brasil varonil.
Tive a idéia de escrever sobre isso muito mais pela diversão de compartilhar os diversos estilos de “linguajar” da nossa gente do que pela pesquisa gramatical. Não sou um profissional da educação, apenas instigado pela forma como nosso pessoal sabe improvisar, mixar, misturar tudo com o intuito de facilitar os caminhos.
Essa necessidade de adaptação e socialização acaba evidenciando-se como identidade cultural.
Existe algo que descreva mais o cidadão de Minas Gerais do que um cantado e tranqüilo “Uai sô” ?
E o “Meu”? Tem dúvidas ainda “meu”? Dá licença véio” O Paulista,firmeza?
O “cumpadi e o mermão”, são moleques conhecidos no Rio.
Assim como o Piá e o Guri são os primos do Sul, no Paraná e Rio Grande do Sul respectivamente.
Isso é só o começo,a saudação.
Tendo vivido em diferentes Estados, pude sentir essa diferença na conversação entre os naturais daqueles lugares.
Outro dia, aqui no Rio, em uma conversa com um colega de trabalho, dando a sua hora de ir para casa ele me coloca a seguinte frase: “Vou meter o pé!” O outro colega, respondeu na lata: “Já é!”
Fiquei alguns anos fora, mas obviamente sei o que significa isso, mas muitos não imaginam. Traduzindo: “Estou indo embora”. A resposta seria: “Ok.” Na minha época de Rio de Janeiro,a gente usava, “vazar”, para tirar o time de campo.
No Paraná, percebi o uso constante da conjunção “daí” para continuação de uma sentença. O “daí” é o elo entre uma palavra e outra. Em Foz, se uma pessoa está bem, está tranqüila, ela “está de boa”. E se ela gosta de algo, esse algo é “massa”.
Em São Paulo, algo legal é algo “da hora”, “certo Mano”? Se algo complica, fica “embaçado”. Mas se tudo se resolve, aí tá “firmeza”.
O nordeste tem o sotaque bem puxado. Mas estou dando ênfase as expressões. Um rapaz de Fortaleza,em visita, me perguntou se a gente não arrumava um “estourinho” à tarde. Eu fiquei meio sem graça. Em Foz isso significava outra coisa, não publicável. Mas na verdade ele queria jogar um futebol à tarde. “Estourinho”,é mole?
Aqui é peladinha mesmo, em Foz o pessoal joga um “suicinho”,um “salaozinho”.
À noite ou o brasileiro vai para a balada, para a “Night” e nas cidades do interior, para o baile.
É muito curioso e até divertido trocarmos esse tipo de cultura. Não tenho espaço para falar mais disso, mas gostaria. Maneiro à vera, tri a “fu”. Massa mesmo, “mó da hora”.
“Mais além escrevo de novo”.
Bom café...

quinta-feira, 22 de abril de 2010

O "Santos" do Brasil

Todos que me conhecem sabem o quanto gosto de futebol. Escrevi algumas vezes aqui, sobre isso. Evito ao máximo usar esse tema pois acabo restringindo o interesse a maioria masculina e a uma minoria feminina que gosta do esporte ou aquela parcela de pessoas que lêem tudo, independente do tópico.
Feriado prolongado, aquela preguiça generalizada, apesar de eu estar trabalhando, escolhi o futebol como pauta. É mais light. E haja assunto para abordar no futebol.
Aí é que vem a curiosidade. O que escreverei abaixo, apesar de diretamente ligado ao jogo de bola, já está fugindo do âmbito esportivo restrito. O Santos!
Quando você sai de casa num Sábado à noite, para se divertir, seja num show, seja num bar, numa boate, cria-se uma expectativa de que você se divirta.
O homem quando sai de casa hoje para ir ao jogo do Santos, ele não sai mais com a expectativa de ir a um jogo de futebol. Ele sai sem saber o que vai ver. É como ir a um espetáculo de teatro, a um show de circo inédito. Mas ele sabe que vai se divertir.
E isso é algo que intriga a todos. Homens, mulheres, crianças.
O que o time do Santos faz hoje, não é visto há tempos. Para quem gosta de futebol, para quem não gosta e para quem é indiferente.
Se você faz parte do grupo desinteressado, arrisque-se a ver um jogo do Santos na televisão. Você, o locutor e todos os que estarão assistindo àquilo ficarão surpresos.
O que esses “caras” e “moleques” vêm fazendo no campo é um absurdo. Impossível postar-se com antipatia ante a alegria com que eles exercem suas obrigações.
Para quem não tem noção do que isso significa, eu tento explicar: o time já fez na temporada 91 gols. Neste período, somente o Santos de Pelé, esse mesmo, o Rei do Futebol, fez. E como não vi o time de Pelé, só ouço histórias, acredito que estou presenciando algo mais mágico do que aquilo. Desculpem-me os mais “experientes”, mas em minha concepção, o Mundo é muito mais competitivo e hostil do que sempre foi, em tudo, inclusive dentro do relvado. Logo, acredito que o grau de dificuldade de hoje, louva ainda mais o que vem sido feito por eles.
O toque de bola rápido, pode ser comparado ao sincronismo dos malabaristas de um circo trocando os objetos jogados ao ar. A velocidade aplicada confunde os zagueiros e nossos olhos.
As goleadas antes ditas esparsas e aplicadas pela fragilidade adversária, hoje são comuns.
Sério, a quem lê este texto e não consegue compreender a magnitude do feito, envio-lhes meus pesares.
Sou Flamenguista, todos sabem disso, mas fico encantado mesmo com o Santos. Amo o futebol, e futebol é o que eles fazem. O Corinthiano, o São Paulino e o Palmeirense, rivais próximos do estado, tenho certeza, não conseguem sentir raiva deste time de branco.
Gostaria de ver a cara do sempre pessimista Sr.Orfeu ao comentar este Santos, com o José Olímpio faceiro ao seu lado, tentando convencê-lo. E o Thiago fanfarrão, e sua família de Santistas.
É legal ver algo tão raro em nossa geração.
Um jogador rápido, jovem, alegre, habilidoso e outro meia clássico, que joga como a muito não se vê, canhoto e com uma visão de jogo ampla.
A única coisa capaz de tirar toda essa minha euforia é o nosso selecionador nacional, “anão de conto de fadas”, o Dunga.
Estamos fadados a uma seleção que não condiz com o que é nosso futebol hoje. A Copa da África será alegre, provavelmente para Argentinos, Espanhóis e Africanos.
O nosso futebol vai ser de carrancudos, de jogadores travados, sem muito recurso, mas que são da confiança do desconfiado e inseguro “pseudo-treinador”.
Resta-nos aproveitar o Santos. Enquanto ainda é tempo. E ao que tudo indica, esse tempo é curto.

Bom Café...

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Ilhas e barcos

Há muitos meses escrevi aqui sobre a minha mãe. Lembro-me que era um texto em homenagem ao dia das mães. Este texto não é a mesma coisa, apesar de estarmos a menos de um mês desta data comemorativa. No texto antigo, havia lá uma frase em que dizia que o Mundo poderia acabar em qualquer momento desde que eu estivesse no colo dela, afinal, ali não tinha medo de nada. O conforto, a proteção que ela me transmite.
Hoje vivo uma situação que não duvido que seja comum a muitos jovens da minha geração e das subseqüentes. Da relação dos mais jovens com seus pais. Começo a questionar o papel do filho. Não é mais o mesmo dos nossos pais para com seus pais.
Se o Mundo terminasse hoje, será que a minha mãe sente o mesmo conforto que descrevi sentir em relação a ela?
Será que ela espera a proteção dos filhos em relação a isso? E nós, estamos preparados a oferecer isso?
Quando uso a expressão “Mundo acabasse”, me refiro a qualquer aflição, qualquer insegurança ou momento adverso que eles venham a enfrentar. Não era comum que nossos avós transparecessem seus infortúnios aos filhos e pedissem-lhes opiniões sobre ao que fazer, que decisão tomar, que caminho seguir. Por mais que eles pudessem ser úteis. Isso é cultural. O respeito era primordial, e esse respeito distorcido incluía não ter a liberdade de opinar. Havia essa distância. É comum você ouvir seus pais dizerem que seus pais são teimosos, não querem ir ao médico ver aquele problema, não querem desfazer daquele carro velho e sucateado que está lá na garagem abrigando mosquitos da dengue e enferrujando, ou não querer mudar-se para uma casa mais confortável que em muitos casos o filho oferece-lhes. É difícil para eles aceitar que seus filhos tomem controle das decisões importantes da família uma vez que ele sempre desempenhou essa função.
A instituição familiar hoje é constituída por um quadro totalmente difuso. Com a evolução das relações humanas em todos os aspectos, desde a corrida tecnológica à inclusão da mulher no mercado de trabalho e em posições chave na economia e política (o que eu sintetizaria como independência feminina) ao liberalismo ideológico como a aceitação das mais diversas manifestações religiosas e à sexualidade, o padrão comportamental se confundiu.
Mães e pais se tornaram “ilhas”, e seus filhos “barcos” que desancoram e só voltam quando querem e se querem. A informação chega rápido demais, e precocemente membros de uma família se tornam independentes, isolados sem preparo algum. Cedo ou tarde os filhos se descobrem barcos naufragados, e os pais, ilhas imóveis, se vêem incapazes de fazerem algo.
A obrigação dos filhos mudou. Nossos pais precisam tanto de nós quanto o inverso. Somos a fonte mais rica de experiências a quem os mesmos podem recorrer. Temos o que eles nos ensinaram e o que aprendemos nessa nova sociedade, mutante, que não lhes foi passado por seus tradicionais e algumas vezes retrógrados progenitores.
Em muitas vezes eles sentem-se tímidos ao buscar respostas para situações novas. E retraem-se gerando ansiedade, aflição e desenvolvendo males. Nós devemos muito a eles. Oferecer o colo, o ombro, os ouvidos e algumas palavras fazem toda a diferença.
Antes de serem nossos pais, eles são pessoas. E viveram a maior revolução tecnológica, ideológica, econômica e comportamental de todas as gerações. Cobrá-los saídas para todos os problemas é uma injustiça.
Seja amigo dos seus pais. Vai aprender mais e vai ensinar algo.

Bom Café...

sexta-feira, 9 de abril de 2010

O Rio transbordou!

Só mesmo a natureza para colocar o homem e sua prepotente postura de auto-suficiência em seu devido e humilde lugar.
Penso se a cobertura dos meios de comunicação pelo Brasil afora consegue situar as pessoas ante a realidade que vive o Rio de Janeiro hoje, após o dilúvio.
Se precisasse sintetizar o quadro da cidade agora, diria que vivemos o caos, que nunca vimos algo tão intenso em matéria de chuvas em muito tempo. Antes que as pessoas se apressem em dizer, sem embasamento algum de argumentos, que a cidade é uma zona, que o Rio é mal planejado, mal administrado, afirmo que este não é o caso. Não há cidade do mesmo porte do Rio de Janeiro no Brasil e talvez no Mundo, que suporte um fenômeno como esse. Choveu em 1 dia, o previsto para 2 meses. A previsão para Abril era de 130 mm e em apenas um dia, choveu 250 mm. Ou seja, algo completamente atípico e inesperado.
Agora vamos aos fatos. A cidade parou. Parou mesmo!
A formação geológica, principalmente relativa ao solo e relevo, mas também quanto à localização cartográfica e as incidências das massas de ar e variações climáticas facilitam as alterações bruscas que provocam chuvas como esta.
As conseqüências drásticas podem ter como justificativa a intervenção do homem à natureza ao longo dos anos, com o crescimento demográfico, especulação imobiliária e as ocupações impróprias (sendo estas não somente através da favelização).
O governo por sua vez age de forma refratária, ou seja, só se manifesta diante do problema ao invés de criar uma infra-estrutura de prevenção. A regulamentação fundiária seria uma saída para que houvesse o mínimo de estrutura preventiva às construções acerca de encostas. O sistema pluvial deveria ser extenso e amplo, mas acima de tudo limpo, para que toda a água proveniente de chuvas intensas como estas pudessem ser escoadas de forma a não causar todo o transtorno hoje visto.
As ações acabam sendo emergenciais, ineficazes à longo prazo. Além de tudo, para se ter idéia, a tecnologia utilizada pela Defesa Civil nacional está defasada em pelo menos 20 anos.
Com isso, o número de mortos neste episódio é simplesmente o que causou mais vítimas no Mundo todo em 2010, pela mesma causa, ou seja, fenômenos pluviais.
Vale lembrar, que destas vítimas, 100% foram mortas em deslizamentos, ou seja, ocupavam áreas de riscos.
Apesar da violência da natureza e da forma surpreendente como tudo ocorreu, o Governo do Rio admite ser parcialmente responsável pelos problemas ocorridos. Não sei até que ponto é construtivo admitir falhas num momento como este, simplesmente. Ao mesmo tempo acho que não só o poder público deva assumir sua parcela de culpa. A população principalmente, com seu déficit de bom senso e educação, é também responsável, ou irresponsável a despejar lixo em lugares indevidos, em rios e córregos, em terrenos elevados, e ao se instalarem em áreas completamente impróprias para moradia, sem o consentimento das autoridades.
O fato é que a soma de toda a displicência da sociedade em geral acaba com este saldo catastrófico.
A cidade do Rio não suporta sua própria população. Não há estrutura habitacional, nem de transportes, nem de saneamento, nem de segurança que suporte esse infindável inchaço.
Quem dirá suportar o maior dilúvio dos últimos 50 anos.
Bom café...