Há muitos meses escrevi aqui sobre a minha mãe. Lembro-me que era um texto em homenagem ao dia das mães. Este texto não é a mesma coisa, apesar de estarmos a menos de um mês desta data comemorativa. No texto antigo, havia lá uma frase em que dizia que o Mundo poderia acabar em qualquer momento desde que eu estivesse no colo dela, afinal, ali não tinha medo de nada. O conforto, a proteção que ela me transmite.
Hoje vivo uma situação que não duvido que seja comum a muitos jovens da minha geração e das subseqüentes. Da relação dos mais jovens com seus pais. Começo a questionar o papel do filho. Não é mais o mesmo dos nossos pais para com seus pais.
Se o Mundo terminasse hoje, será que a minha mãe sente o mesmo conforto que descrevi sentir em relação a ela?
Será que ela espera a proteção dos filhos em relação a isso? E nós, estamos preparados a oferecer isso?
Quando uso a expressão “Mundo acabasse”, me refiro a qualquer aflição, qualquer insegurança ou momento adverso que eles venham a enfrentar. Não era comum que nossos avós transparecessem seus infortúnios aos filhos e pedissem-lhes opiniões sobre ao que fazer, que decisão tomar, que caminho seguir. Por mais que eles pudessem ser úteis. Isso é cultural. O respeito era primordial, e esse respeito distorcido incluía não ter a liberdade de opinar. Havia essa distância. É comum você ouvir seus pais dizerem que seus pais são teimosos, não querem ir ao médico ver aquele problema, não querem desfazer daquele carro velho e sucateado que está lá na garagem abrigando mosquitos da dengue e enferrujando, ou não querer mudar-se para uma casa mais confortável que em muitos casos o filho oferece-lhes. É difícil para eles aceitar que seus filhos tomem controle das decisões importantes da família uma vez que ele sempre desempenhou essa função.
A instituição familiar hoje é constituída por um quadro totalmente difuso. Com a evolução das relações humanas em todos os aspectos, desde a corrida tecnológica à inclusão da mulher no mercado de trabalho e em posições chave na economia e política (o que eu sintetizaria como independência feminina) ao liberalismo ideológico como a aceitação das mais diversas manifestações religiosas e à sexualidade, o padrão comportamental se confundiu.
Mães e pais se tornaram “ilhas”, e seus filhos “barcos” que desancoram e só voltam quando querem e se querem. A informação chega rápido demais, e precocemente membros de uma família se tornam independentes, isolados sem preparo algum. Cedo ou tarde os filhos se descobrem barcos naufragados, e os pais, ilhas imóveis, se vêem incapazes de fazerem algo.
A obrigação dos filhos mudou. Nossos pais precisam tanto de nós quanto o inverso. Somos a fonte mais rica de experiências a quem os mesmos podem recorrer. Temos o que eles nos ensinaram e o que aprendemos nessa nova sociedade, mutante, que não lhes foi passado por seus tradicionais e algumas vezes retrógrados progenitores.
Em muitas vezes eles sentem-se tímidos ao buscar respostas para situações novas. E retraem-se gerando ansiedade, aflição e desenvolvendo males. Nós devemos muito a eles. Oferecer o colo, o ombro, os ouvidos e algumas palavras fazem toda a diferença.
Antes de serem nossos pais, eles são pessoas. E viveram a maior revolução tecnológica, ideológica, econômica e comportamental de todas as gerações. Cobrá-los saídas para todos os problemas é uma injustiça.
Seja amigo dos seus pais. Vai aprender mais e vai ensinar algo.
Bom Café...
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