quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Jingle Bells

Andar em círculos. Expressão que dá a idéia de estarmos perdidos, sendo inúteis, não encontrando solução. No sentido literário seria como numa pista de atletismo, ainda sim não são exatos círculos, a pista tem um formato misto de retângulo com extremidades curvilíneas, que te colocam de volta em volta no mesmo lugar.
Esta é a sensação que o tempo nos traz, e o relógio, objeto de representação do abstrato temporal, representa igualmente um ponteiro ao encontro das 12 horas e uma pessoa diante te um Papai Noel mal representado por um homem magro e suado na praça, com uma barba de algodão mal colada. “Ho, ho, ho, é Natal!”
Isso só lhe faz pensar que mais um ano passou voando e que você está ficando velho. Brincadeira, em parte. Tudo depende do ponto de vista. Isso me fez pensar no porque as pessoas sempre dizem que virada de ano é um período de renovação, de coisas novas, de lavar a alma. E para as pessoas que estão bem em todos os âmbitos da vida? As pessoas que não precisam destas mudanças radicais?
Fica bem claro que esta manifestação da maioria, que esta onda de renovação é espelho de uma insatisfação na forma como suas vidas vêm sendo conduzidas. Até aí não há nada de novo. No caso dos brasileiros, é evidente que possuímos uma maioria insatisfeita, isso ignorando dados probatórios, pesquisas encomendadas. Por isso este sentimento de esperança emana nesta fase do ano, diante de tantos apelos e crenças por um ano melhor.
Quando você completa este círculo anual, é como se desse de frente com um espelho e perguntasse a si: E aí, tudo bem?
A reposta geralmente pende para o negativo. Você queria ter viajado mais, ganho mais dinheiro, ter sido promovido, ter encontrado alguém que lhe satisfizesse por completo, amado mais. Enquanto isso, seu tempo foi curto, não viajou nem em feriados prolongados, ganhou seu dinheiro mais gastou mais do que isso, iniciou uma paixão de lhe promover calafrios eufóricos que hoje virou rotina, e pensa que o amor não foi suficiente de nenhum dos lados. Se sente fraco e sem fé, e promete que o ano que vem será diferente.
A verdade é que nunca estamos satisfeitos. E que muitas das coisas que deixamos de fazer devem ser depositadas nas nossas contas, em nossas escolhas. Às vezes por comodismo, medo, falta de confiança, deixamos de arriscar mais, de acreditar que podemos ser e viver mais. Enquanto que às vezes nos perdemos em uma falta de discernimento e cometemos devaneios que nos fazem andar para traz. Como num jogo de aventura no vídeo game, em que você “morre” e começa do último “save point”. Olhar para traz e ver que o que você tinha era muito bom e que não precisava ter aberto mão daquilo, apenas administrado emoções.
Um emprego legal,uma namorada, seu apartamento que achava apertado, podem te fazer falta.
Então não é justo com você mesmo, chegar ao final do ano e propagar a mudança radical, dizer que ainda bem que o ano acabou, e que finalmente, começará aquela dieta, aquele curso que vai alavancar sua carreira, ou sair pelo mundo sem rumo.
O cronograma será praticamente o mesmo de todos, e você só anda em círculos se quiser. Encarando como se estivesse sempre andando em frente, entendendo que as derrotas, os momentos ruins só engrandecem, e curtir as festas com o simples significado da palavra: Festa.
Então festeje, “encha a cara”, reveja os familiares, volte a sua cidade de origem, curta a folga que a maioria pode ter, e não se cobre muito.
Seu ano foi bom, o ano que vem será um ano igualmente bom.
Paz a todos.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Telefone celular: utilitário ou brinquedo inútil?

Tive que ir ao shopping um dia desses, aqui perto de casa, e como é comum nesta época do ano, qualquer centro comercial, rua, viela, calçadão, e principalmente Shopping Center, ficam abarrotados de pessoas.
Sem muita bala no cartucho para gastar, meu itinerário neste tipo de estabelecimento se resume a um restaurante ali, um cinema acolá, e um sorvete de iogurte. Nada muito dispendioso.
Mas nem o mais distraído dos indivíduos deixa de prestar atenção a um conglomerado de pessoas semelhante a um formigueiro á esquerda, a direita, ou mais a frente numa loja distante não tanto ao visual. A primeira piadinha que o carioca faz quando vê esse tipo de movimentação: “Estão dando doce ali?” Fazendo alusão ao feriado estadual de São Cosme e São Damião, aonde as pessoas oferecem doces na porta de suas casas às crianças, que formam filas em frente a estas residências.
Mas que tipo de produto atrai tanto as pessoas nesta época do ano? Descobri que não tem nada a ver com a época do ano, é um produto que desperta este interesse o ano todo. Telefones celulares, telefonia móvel em geral.
Isto me instigou a escrever um texto.
Esta política econômica que se fortaleceu nos últimos anos elevando o poder de compra de todas as camadas sociais brasileiras, mudou o padrão de consumo das camadas inferiores.
E o mercado que não é bobo nem nada, faz um ataque sedento à classe mais numerosa.
O produto em si, o aparelho telefônico, tem de possuir um princípio básico e imprescindível, que é lhe dar boas condições de falar e escutar. Mas qual é a graça?
Os aparelhos hoje oferecem milhões de utilidades “extras” que chegam a descaracterizar a natureza funcional do produto. Um aparelho que reproduz MP-3, vídeos, acessa redes sociais e envia foto mensagens, por exemplo, só lhe permite usufruir de tudo caso obtenha um plano de cobertura “x”, e muitos não têm condições de adquirir tais planos. O que torna o telefone obsoleto, em sua original função.
Os contratos de telefonia hoje permitem que as pessoas tenham um aparelho que não as permitem fazer ligações a não ser que tenham créditos, os famosos pré-pagos. E a maioria das pessoas que está naquele entrevero popular não tem condições de formalizar contratos de telefonia pós-paga, ou as contas, que dão a liberdade de uso a um custo final mais caro, devido a comodidade.
O telefone hoje é muito mais do que um aparelho que conecta as pessoas através de voz, mensagens e conversações simultâneas. O objeto tornou-se símbolo de ascensão e status social, de um falso poderio econômico, uma vez que muitos não possuem telefones compatíveis com sua realidade.
O marketing envolto nesse tipo de segmento é eficaz a ponto de fazer com que uma grande quantidade de consumidores priorize ostentar uma “cereja preta” um “ai-fone” ou “N-12345678” do que investir em algo que melhore suas condições básicas de vida.
Um fenômeno mercadológico já visto na recente febre de consumo pelas televisões, hoje se volta à telefonia. Não é a toa que ocupam as mais nobres cotas de propaganda da rede nacional.
Bom café.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Ter e não ser? Eis a questão

É involuntário, mas me pergunto o porquê da maioria das pessoas se referem ou interpretam amor com a imagem de um casal feliz, um horizonte belo e uma espécie de silhueta ou áurea em forma de um coração parecendo que postado ali ao acaso, ou atraído pela energia de tal sentimento.
Antes que os marmanjos de plantão comecem suas insinuações sobre a sensibilidade temática do texto, me adianto e aviso: escrever requer sensibilidade fale você de amor ou de guerra, portanto, sugiro que a critica surja acerca da leitura completa do texto.
Muitas vezes me uso como exemplo, como base de relato às minhas impressões, mas poderia criar uma personagem perfeitamente comum à nossa cultura cotidiana. Alguém que acorda cedo, trabalha, estuda a noite e se vê dominada pelo ritmo frenético das obrigações incanceláveis.
Qual é o real objetivo do seu ciclo diário rumo a dias iguais aos outros? Porque os sonhos se perdem cada vez mais cedo?
Perdem-se é forma expressiva de eximir de culpa quem simplesmente deixou para trás o ápice do enredo de sua biografia.
Quando você anda num centro econômico, num centro comercial aonde quer que seja, percebe quantas pessoas incógnitas cruzam por você, passam do seu lado, estão paradas num ponto de ônibus ou, sei lá, num dia quente tomando um sorvete?
Se dedicasse dez minutos a apenas observar a fisionomia destas pessoas, perceberia o quão indiferente é a maioria dos semblantes. Todos parecem andar sem destino. Isso me lembra um clipe do Pearl Jam , “Do the Evolution” aonde os seres-humanos ao nascer seriam marcados com códigos de barras, como mercadorias. E essa indiferença sentida é reflexo de uma evolução sócio-cultural voltada para a produção e quantidade. Quando falo disso, me refiro à resultados. Lucros, metas, positividade numérica. Palavras que substituem sonhos.
Volte ao momento em que passou a observar por dez minutos as pessoas ao seu redor. Pense o quão incrível seria, independente de status e poderio econômico, de vestimenta, de estética destas pessoas, que cada um destes têm ou teve um sonho, pelo menos um dia. E se todos pudessem ter realizado esses sonhos? E se ao menos alguns deles? Estariam essas pessoas andando como parecendo “frios andróides”, provavelmente indo ao encontro de um compromisso o qual ele foi obrigado a comparecer?
Tenho certeza que a vida de muitas destas pessoas daria bons livros.
A satisfação ilusória do consumo é o mecanismo que sustenta parte de toda essa realidade. A troca do “ter” por “ser”.
Onde está o amor? O amor em você mesmo.
A primeira resposta que as pessoas têm para justificar a perda da paixão pelas coisas da vida é que não há opção, que o Mundo “massacra”, que o tempo passa, e que precisa pagar contas e trabalhar. E isso serve como justificativa global aos considerados fracassados, ou, resignados.
Eu não tenho a fórmula, sou alguém que vive esta perspectiva real, mas me questiono de tempos em tempos. Abrir mão desse amor ocasiona perda de confiança, desilusão. Isso reflete no convívio social do mais superficial ao mais íntimo.
Talvez seja a motivação pela qual esteja compartilhando estes questionamentos. E a resposta a essa aparente incontornável onda comportamental, de minha parte, está aqui, nestes textos que semanalmente escrevo. Talvez seja resquício do que almejei um dia.
Não faria sentido se todos simplesmente aceitassem as condições que a vida lhes propõe, e deixasse o tempo se encarregar do resto.
Cadê seu amor, “pô”?
Ame a si a ponto de permitir-se deixar fazer coisas que o satisfaçam. Faça algo bonito aos seus olhos, não aos alheios.
Não seja número se pode ser história.

Bom café...

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Violência Vende

Não gosto de repetir o conteúdo dos meus textos, mas depois do meu último texto, relatando a atmosfera do Rio de Janeiro em meio à violência proveniente do choque entre o tráfico e o mecanismo de segurança publica estadual, não posso deixar de fazer um adendo ao produto que se tornou para a mídia em geral essa guerra civil que acreditem, está longe de terminar.
Nem novela, nem jogo de futebol, nem BBB, nem Jornal Nacional. O legal da semana era ver o tiro “comendo”, as pessoas correndo para lá e para cá desesperadas (nem todas, algumas pasmem,paravam para dar acenar às câmeras), e traficantes se espalhando pelo meio do matagal morro adentro como formigas em meio a uma pisada no formigueiro. Não duvido que as cotas de propagandas nos intervalos das transmissões ao vivo tenham valorizado consideravelmente.
Diante do escarcéu promovido pela bandidagem, a resposta à opinião pública principalmente aos olhos do restante do Mundo, uma vez que o Rio e o Brasil são futuros anfitriões de mega eventos internacionais, tornou-se necessidade.
E como transformar uma polícia desvalorizada e dita corrompida em ferramenta eficiente ao combate a algo que nunca conseguiu combater?
Os “superstars” do Bope entraram em ação, mas eles já existiam...
Foi fundamental a intervenção federal, mesmo ante uma incompreensível resistência do Estado. Não é hora de fazer testes, tampouco de orgulho. A opinião pública quer resposta imediata.
Agora se pensarmos um pouco, foi uma ação antecipada pela necessidade. Se é que havia de fato um plano para retomada territorial daquela comunidade, confessa pelo próprio secretário de segurança, o quartel general do crime. Sendo essa ação antecipada, como confiar que o seu resultado seja permanente?
Meu receio, como morador do Rio, é que essa resposta tenha sido superficial. Que tenha sido só um reality, uma minissérie policial aonde o bem sempre vence. Uma edição de cenas inéditas e fortes.
O que dizer dos blindados da Marinha brasileira se locomovendo vielas adentro? Sensacional. “Uma pausa: Blindados da Marinha são os famosos tanques de guerra mesmo, que eu sei lá por que cargas d’água não poderiam ser descritos como tal.”
Será que pode sujar mais a imagem do Rio, dizer que há tanques de guerra a proteger a população do que deixar os bandidos tocarem o terror como vinham fazendo?
Parece que de uma hora para outra tudo se resolveu. Querem mesmo que a gente acredite que simplesmente acabou? Que compremos posters de policiais militares com os dizeres: Heróis Nacionais?
À vista grossa ou o medo, ou a própria consciência de incapacidade que deixaram o crime crescer no país, se perdeu em um final de semana?
Eu juro que gostaria muito que fosse fácil assim. Quem não quer paz? Nós do Rio sequer sonhamos com a utópica vida sem tráfico, sem crimes. Simplesmente nos acostumamos com o mal. E para que o poder público passe credibilidade à todos, precisará que faça muito mais do que uma cena em horário nobre nacional. Que seja concreto e estável. E isolem os mentores, “os reis”, e desarmemos “peões” deste jogo violento.
Aquela cena toda, de policiais fincando a bandeira do Rio e do Brasil no alto do morro, é tão forçada como a cena do Armstrong fincando a bandeira dos Estados Unidos na Lua.

Bom café...