quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Aos meus ilustres

Grandes personalidades geralmente são marcadas por grandes feitos, realizações. E a proporção destes fatos cresce de acordo com a forma e a intensidade em que isso é divulgado, alardeado. Logo, se torna óbvio concluir que políticos, empresários e membros de sociedades fechadas com fins beneficentes, tornam-se figuras congratuladas e celebradas por grande parte da população.

Mas, tal fidalguia nem sempre é sincera, limpa. Em grande parte dos casos, há um grande interesse no retorno acerca da boa imagem construída. E é um retorno mais que natural. Alguém que faz algo bom tende a receber o bem de volta, certo?

Muitos buscam notoriedade. Mas os que mais conseguem são os que não se preocupam com isso.

Meu primeiro episódio na busca pelo primeiro emprego, um simpático e desajeitado jovem, já garantido na função, sabendo que só haveria aquela vaga e sensibilizado pela minha situação, desistiu da vaga para que eu pudesse entrar. Sequer me conhecia. A atitude foi tão legal, que a dona do estabelecimento ficou com os dois. Tornamo-nos grandes amigos, até hoje, e nunca esquecerei esse cara.

Outro ilustre personagem desse período dividiu momentos de solidão e cervejas de litro na mercearia “fuleira” da vizinhança nas madrugadas mais inóspitas. Compartilhávamos conselhos e a saudade de casa. Certa vez disse estar apaixonado por uma menina a quem convidou para tomar uma long neck no posto. A razão da paixão, o fato de ela ter se posicionado a pagar a sua própria cerveja. Mulher independente, de atitude. Hoje estão casados, e o pequeno Caetano está a caminho.

O que dizer do carrancudo de melhor coração que conheci? Aquele negão põe medo em qualquer um. Sério e frio por fora, mas em quem confia , se torna praticamente um irmão. Um músico que apesar de preguiçoso para o ensaio, ainda é um dos melhores. Sua mãe faz o melhor café passado da região.

Neste período, fiz parte de muitas famílias. Era “adotado” em quase todas as casas em que entrava. A família do Yorkshire Baby, foi muito importante, no meu início. Pessoas muito boas e trabalhadoras. Um exemplo a ser seguido.

Já a família do Ozzy, o dog highlander é a típica família italiana. Sempre cheia de gente, cheia de comida, cheia de gritaria. Divergem e discutem as pessoas que se amam muito. Isso é normal, principalmente aos de origem latina.

Dos mais recentes porém não menos importantes ilustres, a “tia” do pastel na Feirinha Cultural de domingo. Um poço de alegria e simpatia. O povo do melhor churrasquinho da cidade, infelizmente hoje extinto, o qual era praticamente mensalista. O paulista de Lins e sua esposa, muitas manhãs de conversa agradável e cafés expressos. O professor e seu filho, de alma intelectual e pacífica. Sente para uma conversa com eles, e as horas passarão como se não sentisse. Aos botequeiros de uma rodada e de todas as rodadas. Aos meus colegas de faculdade e hotelaria, muito importantes para meu desenvolvimento profissional e também pessoal. Aos moleques do futebol, sempre.

Como mencionei no início do texto, algumas pessoas levam o rótulo de ilustres por suas bem feitorias, em geral em larga escala. Mas para cada um de nós, existem os ilustres incógnitos, que fazem da nossa vida algo bem melhor, com atitudes simples. Aos meus ilustres, inclusive aos que não foram citados por falta de espaço, este texto como gratidão.

Bom café.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Menina e mulher

Não, este não é e não passará a ser um espaço voltado às tendências da moda feminina, absolutamente. Discutir comportamento? Faço isso às vezes, e acho construtivo e divertido.
Fugindo um pouco do habitual e me arriscando e muito aos mais diferentes possíveis julgamentos, e com um “molde” absolutamente inspirador, resolvi jogar no ar algo que poucos homens se arriscam a fazer: analisar o estilo e o comportamento de uma mulher jovem e contemporânea sob a pressão das mais fortes campanhas comerciais e a imposição da moda inferindo os mais diferentes hábitos femininos.
Para os machistas já “mando a letra”: o que difere um malandro de um mané é a forma como ele trata uma dama. Notar a mudança na cor das unhas ou um leve corte na franja do cabelo delas, não vai pôr em dúvida sua masculinidade, e sim te fazer ganhar muitos pontos com a moça. Mulher gosta de atenção. Não é a toa que gastam horas e fortunas em salões de beleza. Logo, não seja bruto e insensível sempre. Há horas para tudo.
Para as meninas que julgarem meu tópico digamos, estranho para um homem, “mando a segunda letra” do dia: não sei a diferença entre Scarpin e Mocasin, isso sim seria demasiado estranho para um rapaz. Brincadeiras à parte, esses dias, numa conversa breve e informal com a moça do balcão da mercearia próxima a minha casa, ouvi o seguinte diálogo: A menina mais nova, pedindo para ser liberada mais cedo, pois sairia à noite e precisaria se arrumar. O dia estava claro e o sol forte. Deveriam faltar umas quatro horas no mínimo para que ela chegasse ao local. Prosseguindo o relato, a resposta da mãe foi seca: “Para que minha filha? Os homens nem reparam nisso.”
Adentrei a conversa sem pedir licença, concordando parcialmente com a moça, mas dando alento a jovem garota, dizendo que determinados homens prestavam sim atenção, mas que o maior charme não está nas quatro horas de preparo e seu resultado, e sim na postura e atitude da mulher. Ela pareceu não me dar ouvidos, claro, e foi pra casa com o aval da mãe.
Hoje, o mercado entope este segmento compulsivo e consumista que é a moda e a beleza feminina em geral.
O fato é que as mulheres querem e sentem-se seguras estando com um modelo similar ou próximo ao que vêem nas revistas de moda, nos programas de televisão e nos tapetes vermelhos espalhados ao redor do mundo.
E muitas vezes o homem é o alvo em segundo plano. A competição é acirrada, entre elas mesmas.
Aí é que entra um detalhe importantíssimo. A personalidade. Não a personalidade imposta pela propaganda, com o reles intuito de vender e vender. Esta personalidade é deteriorável, mutante.
A coisa mais linda numa mulher é a segurança que ela passa baseada na sua autenticidade e características originais. Realçar o que é mais lindo de uma forma sutil, e se demonstrar confiante. Ponto. Não depender de uma etiqueta, de uma bolsa ou um salto para estar bem. Isto é descartável de uma forma rápida. A mesma colunista de moda que te indicou “x” tendência hoje, vai acabar com você caso continue usando “x” por muito tempo.
Então meninas, trabalhem a atitude, o comportamento. Homens se demonstram irrelevantes quanto a isso, e realmente, muitos são simplesmente broncos, estúpidos. Mas um “cara” de verdade, sabe distinguir uma mulher, de uma carcaça.
Cabelos ao vento, um olhar consistente e brilhante, um sorriso, vários sorrisos, conteúdo cultural e segurança ao se expressar, a tornam a mulher mais linda andando sobre um par de All-Star. Parece simples, mas é o suficiente para me encantar, por exemplo. Em meio às seguidoras dos padrões impostos, se destaca com seu jeito simples aparentemente ingênuo, porém “maroto” de ser.
Não tenha medo de ser menina, tampouco de ser mulher. Há espaço para os dois, e é fundamental saber ser menina e ser mulher. Prender-se a um dos dois estados pode fazê-la nunca crescer, ou ser precocemente velha.

Bom café...

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

O Forasteiro

Quem já sentiu aquela dor na boca do estômago de saudade e já sentiu o rosto se contrair involuntariamente em choro após uma partida, sendo ela definitiva ou não, também já foi recompensado pela euforia, êxtase e arrepios proporcionados por um reencontro. Nunca fui preparado para uma vida estável. Já me descrevera outrora como inquieto. No meu manual constavam os adjetivos, andarilho, inconstante, instável. As minhas raízes rastejam, não se cravam, e chega um determinado momento em que elas não cabem mais naquele espaço. É hora de ir.
Certas pessoas acabam escolhendo caminhos na vida que as fazem acumular este tipo de experiências. Aeroportos e rodoviárias tornam-se ambientes comuns e cenários frios às mais emocionantes representações de reencontros e partidas. Este texto é como um conto, um estória, que reflete a sensação de muitas pessoas que optam por uma vida de aprendizado em cima de riscos.
“Um forasteiro tem o coração diferente. Quando se vive em espaço alheio, empurra as raízes da origem para o canto, absorve os costumes inúmeros postos à sua disposição, e sua bagagem é muito maior e mais pesada do que a sua própria mochila.
Maior no sentido de que não se compram momentos, e aos que vivem essa peregrinação constante, a recompensa é única e exclusiva. Cada um faz sua própria história.
É pesada por levar sentimentos. E o grande fardo do forasteiro é ter que deixar aquilo e aqueles que em pouco tempo aprendeu a amar. Já não são artefatos materiais, e sim lembranças de pessoas e situações, que se acumulam a cada nova experiência. Nas suas andanças, faz amizades sinceras e aleatórias, sem distinção de cor, raça ou credo. Deixa um pouco de si com estas pessoas, leva um monte dessas pessoas com ele. E em cada um dos lugares em que passa, escreve seu nome. Numa árvore, num jornal e em corações.
O forasteiro, com o tempo aprende a ser frio, porém nunca insensível. Já não chora em despedidas, ou melhor, não faz despedidas, ele simplesmente vai.
E os que imaginam que não vale à pena criar vínculo com o forasteiro, se enganam. Ele nunca esquece os que ficaram em seus roteiros. Levar consigo é a forma de proteger os maiores bens que conquistou em suas passagens, as pessoas, as amizades, as paixões. Vive em constante luta com o implacável tempo para que o mesmo não o leve suas lembranças. Por isso, sempre que pode as renova. Os que ficam o esquecem com muito mais facilidade. Sofre com o preconceito de ser imprevisível e espontâneo. Algumas pessoas têm receio disso. Mas é autêntico.
A máxima de que a estabilidade traz equilíbrio e sobriedade não faz parte do seu conceito enquanto forasteiro, apesar de saber que um dia este será um dos seus destinos. Nas suas andanças, conheceu pessoas boas, porém presas dentro de si, frustradas. Por outro lado, nos mais improváveis encontros, conheceu pessoas incríveis como a que o motivou a escrever este texto, sobre as mais extremas e intensas sensações.
A despedida e o reencontro. O preço de uma é pago pela outra. E de fato, de tudo o que vivenciou de mais doloroso foram os momentos de adeus. Assim como a impagável sensação de abraçar e ser abraçado depois de longo tempo saudade.
Mesmo quando volta para seu lugar de origem, continua forasteiro. Aprendeu que seu refúgio está dentro de si. Sua origem é a soma do que vai se transformando a cada novo passo dado. Estar em sintonia consigo é seu alicerce.
Por definição, o forasteiro é aquele que não é da terra. Na prática, o forasteiro é de todas as terras.
Por isso, mesmo que não o vejam indo embora, este lugar nunca deixará de ser dele.”

Bom café...

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Os efeitos especiais são apenas coadjuvantes

Uma das maiores produções cinematográficas da história. Há tanto apelo em torno do filme, que é desnecessário gastar linhas deste texto com os milhares adjetivos cabíveis ao que já chamam de “obra-prima”.

Enquanto todos atentam para a revolução tecnológica por vir ao mundo das telonas, partindo deste pioneiro título, a real “sacada” está na simbologia e na mensagem presente no enredo do filme.

Não sou amante da ficção científica tampouco dos efeitos especiais exagerados. Lembro de ser resistente à entrar na fila imensa do cinema naquela noite de sábado, por não gostar de salas cheias e por não ter sido diretamente atingido pela massiva estratégia de marketing utilizada na promoção de Avatar. Não levo em consideração o fato de ser quase que uma obrigação do indivíduo “antenado” consumir o que está na moda. O que me fez optar por ver o filme foi o pedido da minha namorada.

Ao sair da sala, três longas porém não sentidas horas depois, a agradeci e voltei para casa extasiado.

Acho importante ressaltar que os efeitos especiais são realmente inovadores e bem feitos, isso sem mesmo assistir a tão falada e rara apresentação em 3D, aqui no Brasil.

Mas o mais sensacional mesmo do filme é a mensagem, muitas vezes exposta de forma nítida e noutras de forma bem complexa e enrustida em diálogos e cenas que só mesmo um diretor fora de série consegue captar.

Avatar, palavra que tem como significado a encarnação de uma divindade, fazendo uma síntese, é mostrada no filme como a manifestação dos anseios da alma. Na obra, Pandora e seus habitantes, os Navi, são transcritos como um paraíso natural aonde predomina o respeito e a fé imensa do ser pelo meio. A sensibilidade e a ligação entre a criatura e seu habitat se tornam elementos fundamentais para a existência da vida e o fortalecimento daquela espécie. O filme mostra os humanos, chamados “seres dos céus”, como coadjuvantes de uma filosofia de sobrevivência invejável, a qual ainda se mostra incompreensível e inaplicável a uma espécie totalmente corrompida por interesses mesquinhos e individuais. Uma alusão perfeita ao que se passa hoje no cenário mundial em sua relação do ser humano com o planeta, desde sua não preservação às guerras por fontes de energia e capital.

Outra clara simbologia demonstrada faz menção à forma como lidamos hoje com a tecnologia. Os avatares estão presentes em todos os lugares, em personagens e pseudônimos virtuais que realizam os desejos e vontades dos simples mortais através do utópico.

Voltando ao filme, confesso ter tido a sensação de “ser tarde demais” para que o homem respeite o Mundo da forma como deveria, assim como aqueles seres azulões o fazem na história. Dá uma ligeira vontade de viver num Mundo como aquele, puro, onde há a troca mútua de energia que fortalece todo o contexto. Assim como acontece com o “Marine”, que opta por viver entre eles. Um puxão de orelha e a projeção de como o planeta seria se o respeitássemos.

O lindo enredo conta com a cereja no bolo, o romance entre o homem e a criatura. Receita que nunca dá errado em qualquer produção do cinema. Quem não gosta de romance?

Nunca havia vivenciado uma sala de cinema toda de pé a aplaudir o filme no final. Realmente impressionante.

E pensar que o visionário diretor tinha seu enredo quase todo pronto desde meados da década de 90.

É um filme que te faz repensar em várias questões. Muito legal.



Bom café.