quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Um dia de fúria

Os mais antigos que lêem o título desse meu texto logo se lembrarão do famoso filme estrelado por Michael Douglas no início da década de 90, aonde um cidadão à beira de um ataque de nervos, perde o último fio de tolerância com as mínimas dificuldades cotidianas e parte para a ignorância contra os “zumbis” que surgem a sua frente tratando de tornar seu dia um pouco pior do que já estava.
Vindo para o trabalho hoje, lembrei do William Foster, personagem protagonista da trama. A verdade é que este filme tornou-se símbolo da justiça contra a lei de Murphy, feita por nós mesmos. Outra verdade é que eu não lembrei só hoje, faço isso umas três vezes por semana. Quem nunca sonhou fazer o que o personagem faz no filme?
Deixo claro que esse texto não é uma incitação a violência, nem a intolerância, e sim destaca a saga desastrada que um dia ruim nos submete neste Mundo cada vez mais doido e saturado, vista sob um ponto de vista irônico.
Não vou usar o jargão do atraso, seria pouco criativo, e nem sempre as coisas dão errado só quando não temos tempo.
O trajeto da minha casa até o transporte para o trabalho é de uma razoável caminhada, e na minha rua, como em muitas do Rio de Janeiro, calçada é lugar para carros estacionados, e não para pedestres. Imaginei com um taco de baseball na mão, me divertindo na depredação justiceira, na vingança dos pobres andarilhos sem calçadas. Ou sendo mais atual, estilo Tropa de Elite, bem Rio de Janeiro mesmo, plantando granadas embaixo de cada carro. Será que assim aprenderiam que calçada é lugar para pedestres?
Transporte coletivo, segunda fase do início da jornada. Lata de sardinha sobre trilhos ou simulação de montanha russa sobre rodas?
Que Hopi-Hari que nada, Play Center, Disney então, perde fácil. Emoção mesmo é andar num ônibus no Rio. De cenários paradisíacos à safáris favelas adentro, e até aventuras dentro de túneis sujeitos à arrastões. Surf é mole para quem anda de ônibus no Rio. A cada curva um encontro com o desconhecido. Um poste, um carro, uma capotagem e o mais legal, o corpo-a-corpo dos cidadãos sendo sacudidos e arremessados lata adentro. Chegar vivo é conseqüência. E até tento compreender que as condições de trabalho destes profissionais não são das melhores. Mas que façam greves, reivindiquem, ao invés de brincarem de “Fórmula Bus”.
O trêm é uma lata de sardinha e o Metrô, lata de atum, devidas as proporções sociais de ambos.
Sem muito tempo para o almoço, você para num Mac alguma coisa para comer um lanche. Aí me remeto à melhor cena do filme citado no início. Quase 20 anos depois, e o atendimento é ainda pior. Funcionários despreparados discutem entre si, demoram a entregar-lhe o que deveria ser fast-food, e quando você morde aquele mix de carne com substância desconhecida, descobre que está frio, e ainda suja sua camisa com um pedaço de alface que caiu do mal montado burguer.
São 15:00 horas e eu só fiz o relato do que foi metade de um dia comum. Deve ser divertido para quem lê, afinal, a “desgraça” dos outros é o deleite de muitos. Mas a saída é tentar levar na “sacanagem”, afinal, “dias de fúria” são comuns, e continuarão sendo, a não ser que sua vida tome um rumo extraordinário. Ganhar na Mega-Sena? Não, o extraordinário que me refiro seria ir morar no Tibet , longe do turbilhão consumista contínuo irreversível que leva sua paz embora com cada vez mais velocidade.
Ria de mim hoje, que eu te garanto: amanhã é você quem vai imaginar-se na pele do William enfurecido, e com gosto!
Bom Café...

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Aniversariante do Mês

Há na vida de todos nós um dia no calendário que difere de todos os outros. É o dia em que completa mais um ciclo de 365 dias desde seu nascimento. Na maioria das sociedades ao que se conhece, passa-se que é um dia o qual deve ser festejado, como uma conquista. Analisando como se a vida fosse algo ao qual tivéssemos que resistir, e quanto mais conseguirmos viver, mais gratificados devamos nos sentir.
Na fase infantil, não se compreende bem o significado da data, do porque daquilo. O que vem em mente são os presentes, o bolo, o guaraná, muitos doces, como diz a música até hoje cantarolada pelas pessoas ao redor da mesa principal.
A adolescência parece um calvário, um árduo percurso entre as espinhas, pelos nascendo em todos os mais remotos lugares, a timidez e a rebeldia, o conflito entre não ser criança e não ser adulto, entre não poder mais brincar de certas coisas, mas continuar querendo, e querer fazer algumas novas coisas e não podendo, ainda. É a parte aonde o “eterno enquanto durar” é o que passa mais rápido. O primeiro namorico, o primeiro porre e o primeiro emprego, o primeiro bigodinho de latino e a primeira menstruação das meninas. É tudo por ali.
As festinhas de aniversários não tem parentes velhos, só amigos do colégio, as meninas e meninos mais legais e interessantes e coisas proibidas para menores. Esse negócio de vela, bolo e parabéns para você é repugnante e proibido, até vergonhoso. Você não quer que lembrem que na verdade você está fazendo 13, 14 anos. Ou 17, aonde já espichou, mas ainda não pode ir aquela boate, ou melhor, só nas matinês.
Algumas velas apagadas a mais, e lá está você com saudade da década anterior. Os “vintões” passam pela maior provação ao verem que tudo aquilo que os velhos nos diziam e que achávamos um saco, se concretizou tão perfeitamente quantos suas palavras chatas aos nossos ouvidos. Contas, horários, metas, responsabilidades. É nesse auge da forma física e mental que a vida mais exige da gente. E se vacilarmos, ela exige e tira tudo o que conseguir. O tempo para o lazer é cada vez menor. Na verdade o tempo para tudo é menor. Um dia não tem mais 24 horas, tem 15. Aquele drible que você dava no futsal, e tentou fazer outro dia? Esquece. Nos raros momentos de folga, você bebe. Esse é o famoso ritual de cultivo da barriguinha que a década dos 20 aos 30 o submete. As meninas que tentam se aventurar na antiga brincadeira dos patins, ou roller, não tem mais equilíbrio que não seja para andar em saltos.
Apesar de tudo parecer ir perdendo a graça, entender o significado do seu dia-a-dia, realizar coisas das quais pode se orgulhar, e quando digo isso não falo de “mega-atitudes”, digo corresponder no seu trabalho, ser bom aos que convivem com você, são o melhor presente. Conseguir decifrar o mistério do envelhecimento com a maturidade que cada aniversário lhe traz, é algo magnífico.
Estar longe do que desejou num apagar de velas há 10 anos atrás, mas se sentir capaz de alcançar aquilo mesmo assim, isso é legal. Ou mais legal ainda, que o desejo tenha mudado várias vezes e hoje você não precisar mais apagar uma vela desejando nada absurdamente impossível.
A atmosfera do seu dia sempre existirá, o dia do seu aniversário sempre será seu dia. És sempre digno de parabéns. Mesmo que não haja um bobo cantando “parabéns pra você , parabéns pra você”, ou aquele que diz que o pavê não é “pa cume”, sempre haverá você e você mesmo, lembrando que a 28 anos deu início a obra-de-arte torta da sua vida. Meus parabéns.
Bom café...

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

33 lições de vida

No “Grande Irmão” da vida real, em meio às eleições presidenciais, a imprensa volta-se ao resgate dos mineiros chilenos. Falar em confinamento num reality show cheio de famosos ou pessoas bonitas e de porte atraente, suscetíveis a mudanças de humor ante ao tédio e as confortáveis condições de vida, parece na verdade a descrição de alguns dias num Spa. Aí com algumas semanas de “sofrimento” o participante sai dizendo que virou outra pessoa, que tudo ali dentro é muito difícil, e que foi um aprendizado e blá e blá e blá. Meses depois saem de lá e escrevem uma autobiografia reveladora.
Fico imaginando quanta história têm para contar os 33 trabalhadores presos a cerca de 70 dias a pouco mais de meio quilômetro da superfície sem sequer poderem receber um raio de luz solar. Vencer esse reality não dará a eles um milhão de dinheiros, e sim algo que todos eles têm, mas não tinham tanta certeza de continuar tendo, suas vidas.
Neste reality, não havia espaço para vaidade. Não havia espaço para luxúria ou egoísmos. 33 seres humanos do mesmo sexo, eram a sobrevivência de um e de outro. Provavelmente nem todos seguiam as mesmas crenças, mas ali, naqueles pouco mais de dois meses, um era a bíblia do outro.
Em situações extremas, espera-se todo o tipo de reação do indivíduo, e certamente estes beiraram o limite do instinto de sobrevivência animal. E passaram por ele. Este teste certamente será para estes homens a maior prova de evolução espiritual, a medida que através da sua capacidade de equilíbrio emocional, sustentou-se as condições mínimas de convivência em grupo sem conseqüências drásticas a qualquer um dos sobreviventes.
Diz-se que alguns deles podem sofrer traumas, irão absorver esta experiência positiva, ou negativamente, enfim, o certo é que a vida destas pessoas irá mudar. Acabei de ouvir isso na televisão, dito por um médico psiquiatra. Eu acho que tudo tende a ser bom para alguém que não sabia quando e se veria a luz novamente.
Este episódio ganha atenção de todos no Mundo por ser uma história onde homens passaram o maior tempo confinados em condições precárias e conseguiram ser resgatados.
Exemplo concreto e metafórico para todos nós, em momentos de falta de esperança e de desânimo. Nós somos muito mais fortes e capazes do que sequer possamos imaginar. Não desejo ter que passar por tal teste, mas esses rapazes mostram a todos que a perseverança e a sua fé, seja ela qual for, da forma que for manifestada, têm força nas conseqüências dos seus passos.
Diferente das fúteis intenções comerciais e materiais dos programas das televisões, tendenciosos e às vezes até preconceituosos, o resgate dos mineiros é o verdadeiro final feliz e produtivo de uma indesejada prisão. Acho até meio impróprio e vergonhoso que qualquer Pedro da vida trate de um participante dos próximos BB alguma coisa como um guerreiro, como um sobrevivente. Coçar o saco e correr o risco de ganhar um milhão numa luxuosa casa não requer esforço nenhum, não é mérito nenhum e não engrandece ninguém, só aliena.
A maior vitória deste confinamento real será ver o Mundo de forma diferente, valorizar cada segundo, sua família, seus amigos, seus amores. Com certeza serão pessoas melhores com muitos valores adquiridos.
Bom café...

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

O melhor brinquedo do Mundo

Era 1990, acordei num dia de Outubro e vi meus irmãos felizes com seus brinquedos nas mãos. Não lembro bem exatamente o que eles haviam ganhado, mas o que seguiu aquele momento foram momentos de aflição de um menino de 7 anos. Não havia sinal de presente e um silêncio e uma angústia acompanhada de procura tímida pelos cantos da casa arremeteram sobre o garoto.
Até que o medo se fez real, quando meu pai chegou a mim com a seguinte explicação: “Filho, papai esteve muito ocupado e não conseguiu encontrar seu presente, mas na próxima semana eu vou tentar comprar.” Meus irmãos me olhavam com uma feição estranha, como se estivesses escondendo algo. E de fato estavam.
Desci a escada que levava ao quintal, desolado, com lágrimas nos olhos, e me deparei com ela. Novinha, esbelta, linda. Foi coisa de menino quando se apaixona pela primeira vez. Foi uma das melhores sensações que senti, surpreendente mesmo. Estava lá minha primeira bicicleta.
Na época, havia uma grande campanha de uma famosa marca de bicicletas, daquelas que fazem lavagem cerebral em qualquer criança.
Eu fui atingido por tal campanha publicitária. Torrei a paciência dos meus pais, mas a realidade é que por sermos 3 filhos, dificilmente eles teriam condições de comprar presentes equivalentes para todos.
Mas naquele feriado, aconteceu. Foi sem dúvida o melhor presente da minha vida.
Hoje revivo esta sensação, não como pai, ou sei lá, talvez parcialmente. Presentearemos meu sobrinho com sua primeira bicicleta. Não estarei presente para ver os olhinhos dele brilharem com tal emoção, mas sei o que o espera com sua nova aquisição.
Muitos ralados nos joelhos e cotovelos, mas muito vento no rosto, sensação de liberdade e diversão inigualável.
Aliás, este texto não é por mim e meus relatos de 20 anos atrás, tampouco para meu sobrinho. Aproveitei a data e as lembranças para homenagear o melhor brinquedo do mundo, a bicicleta.
Com tantas inovações tecnológicas, as crianças cada vez mais cedo, estão suscetíveis aos computadores e vídeo games, mas eu duvido que qualquer um destes itens seja tão benéfico para uma criança quanto à bicicleta. E nenhum deles trará uma satisfação tão longa. Eu comecei com 7 anos, e hoje, 20 anos depois, ainda sinto o mesmo apreço pela magrela.
Ficaria muito feliz em ser presenteado com uma bicicleta um dia, quem dirá uma criança conhecendo os prazeres da vida?
Diante de tantas preocupações dos pais na educação dos filhos, enfrentando problemas cada vez mais correntes de sedentarismo ou hiperatividade, obesidade, timidez, irritabilidade e assim por diante, acho cada vez mais importante resgatar algumas tradicionais ferramentas pedagógicas para uma boa condução e desenvolvimento da criança. E não há nada que descredencie a bicicleta, só há coisas positivas relacionadas.
Nenhuma nova invenção ultra divertida e futurista que possa surgir nesse Mundo avançado, individualizado e consumista é capaz de trazer o que traz de bom uma bicicleta.
E na próxima semana, no final do feriadão que a maioria das pessoas estará aproveitando, espero que muitas crianças estejam vivendo a emoção que vivi no início da década de 90. O pequeno Abel estará.
Bom café...