Era 1990, acordei num dia de Outubro e vi meus irmãos felizes com seus brinquedos nas mãos. Não lembro bem exatamente o que eles haviam ganhado, mas o que seguiu aquele momento foram momentos de aflição de um menino de 7 anos. Não havia sinal de presente e um silêncio e uma angústia acompanhada de procura tímida pelos cantos da casa arremeteram sobre o garoto.
Até que o medo se fez real, quando meu pai chegou a mim com a seguinte explicação: “Filho, papai esteve muito ocupado e não conseguiu encontrar seu presente, mas na próxima semana eu vou tentar comprar.” Meus irmãos me olhavam com uma feição estranha, como se estivesses escondendo algo. E de fato estavam.
Desci a escada que levava ao quintal, desolado, com lágrimas nos olhos, e me deparei com ela. Novinha, esbelta, linda. Foi coisa de menino quando se apaixona pela primeira vez. Foi uma das melhores sensações que senti, surpreendente mesmo. Estava lá minha primeira bicicleta.
Na época, havia uma grande campanha de uma famosa marca de bicicletas, daquelas que fazem lavagem cerebral em qualquer criança.
Eu fui atingido por tal campanha publicitária. Torrei a paciência dos meus pais, mas a realidade é que por sermos 3 filhos, dificilmente eles teriam condições de comprar presentes equivalentes para todos.
Mas naquele feriado, aconteceu. Foi sem dúvida o melhor presente da minha vida.
Hoje revivo esta sensação, não como pai, ou sei lá, talvez parcialmente. Presentearemos meu sobrinho com sua primeira bicicleta. Não estarei presente para ver os olhinhos dele brilharem com tal emoção, mas sei o que o espera com sua nova aquisição.
Muitos ralados nos joelhos e cotovelos, mas muito vento no rosto, sensação de liberdade e diversão inigualável.
Aliás, este texto não é por mim e meus relatos de 20 anos atrás, tampouco para meu sobrinho. Aproveitei a data e as lembranças para homenagear o melhor brinquedo do mundo, a bicicleta.
Com tantas inovações tecnológicas, as crianças cada vez mais cedo, estão suscetíveis aos computadores e vídeo games, mas eu duvido que qualquer um destes itens seja tão benéfico para uma criança quanto à bicicleta. E nenhum deles trará uma satisfação tão longa. Eu comecei com 7 anos, e hoje, 20 anos depois, ainda sinto o mesmo apreço pela magrela.
Ficaria muito feliz em ser presenteado com uma bicicleta um dia, quem dirá uma criança conhecendo os prazeres da vida?
Diante de tantas preocupações dos pais na educação dos filhos, enfrentando problemas cada vez mais correntes de sedentarismo ou hiperatividade, obesidade, timidez, irritabilidade e assim por diante, acho cada vez mais importante resgatar algumas tradicionais ferramentas pedagógicas para uma boa condução e desenvolvimento da criança. E não há nada que descredencie a bicicleta, só há coisas positivas relacionadas.
Nenhuma nova invenção ultra divertida e futurista que possa surgir nesse Mundo avançado, individualizado e consumista é capaz de trazer o que traz de bom uma bicicleta.
E na próxima semana, no final do feriadão que a maioria das pessoas estará aproveitando, espero que muitas crianças estejam vivendo a emoção que vivi no início da década de 90. O pequeno Abel estará.
Bom café...
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