quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Violência Vende

Não gosto de repetir o conteúdo dos meus textos, mas depois do meu último texto, relatando a atmosfera do Rio de Janeiro em meio à violência proveniente do choque entre o tráfico e o mecanismo de segurança publica estadual, não posso deixar de fazer um adendo ao produto que se tornou para a mídia em geral essa guerra civil que acreditem, está longe de terminar.
Nem novela, nem jogo de futebol, nem BBB, nem Jornal Nacional. O legal da semana era ver o tiro “comendo”, as pessoas correndo para lá e para cá desesperadas (nem todas, algumas pasmem,paravam para dar acenar às câmeras), e traficantes se espalhando pelo meio do matagal morro adentro como formigas em meio a uma pisada no formigueiro. Não duvido que as cotas de propagandas nos intervalos das transmissões ao vivo tenham valorizado consideravelmente.
Diante do escarcéu promovido pela bandidagem, a resposta à opinião pública principalmente aos olhos do restante do Mundo, uma vez que o Rio e o Brasil são futuros anfitriões de mega eventos internacionais, tornou-se necessidade.
E como transformar uma polícia desvalorizada e dita corrompida em ferramenta eficiente ao combate a algo que nunca conseguiu combater?
Os “superstars” do Bope entraram em ação, mas eles já existiam...
Foi fundamental a intervenção federal, mesmo ante uma incompreensível resistência do Estado. Não é hora de fazer testes, tampouco de orgulho. A opinião pública quer resposta imediata.
Agora se pensarmos um pouco, foi uma ação antecipada pela necessidade. Se é que havia de fato um plano para retomada territorial daquela comunidade, confessa pelo próprio secretário de segurança, o quartel general do crime. Sendo essa ação antecipada, como confiar que o seu resultado seja permanente?
Meu receio, como morador do Rio, é que essa resposta tenha sido superficial. Que tenha sido só um reality, uma minissérie policial aonde o bem sempre vence. Uma edição de cenas inéditas e fortes.
O que dizer dos blindados da Marinha brasileira se locomovendo vielas adentro? Sensacional. “Uma pausa: Blindados da Marinha são os famosos tanques de guerra mesmo, que eu sei lá por que cargas d’água não poderiam ser descritos como tal.”
Será que pode sujar mais a imagem do Rio, dizer que há tanques de guerra a proteger a população do que deixar os bandidos tocarem o terror como vinham fazendo?
Parece que de uma hora para outra tudo se resolveu. Querem mesmo que a gente acredite que simplesmente acabou? Que compremos posters de policiais militares com os dizeres: Heróis Nacionais?
À vista grossa ou o medo, ou a própria consciência de incapacidade que deixaram o crime crescer no país, se perdeu em um final de semana?
Eu juro que gostaria muito que fosse fácil assim. Quem não quer paz? Nós do Rio sequer sonhamos com a utópica vida sem tráfico, sem crimes. Simplesmente nos acostumamos com o mal. E para que o poder público passe credibilidade à todos, precisará que faça muito mais do que uma cena em horário nobre nacional. Que seja concreto e estável. E isolem os mentores, “os reis”, e desarmemos “peões” deste jogo violento.
Aquela cena toda, de policiais fincando a bandeira do Rio e do Brasil no alto do morro, é tão forçada como a cena do Armstrong fincando a bandeira dos Estados Unidos na Lua.

Bom café...

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