quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Marcelo, marmelo,martelo

Outro dia chegando em casa, passando em frente à casa de um dos meus vizinhos, fiquei observando o comportamento dos cachorros dele. Um filhote de Rottweiler, daqueles robustos, e seu velho porém não pequeno e bonito Labrador misturado com alguma outra raça. Os dois rolavam no chão mostrando os caninos e rosnando. O mais novo sempre tomando a iniciativa, e o cão adulto só administrando. Lembrei da relação entre irmãos. Por mais que os animais naquele caso não fossem filhos dos mesmos pais e sequer sejam da mesma raça, eles estão vivendo no mesmo meio, e essa convivência justifica a minha alusão à fraternidade. Lembro que sempre fui de iniciativa, mais agitado, mais impulsivo e enérgico, e meu irmão sempre sereno, colocando a mão na minha testa enquanto eu tentava “atacá-lo”, me evitando com seus braços compridos. Foi isso que vi na minha memória quando olhei os dois cães rolando e “brigando” no quintal da casa ao lado. O mais velho ensinando o mais novo, impondo o respeito, mas nunca o machucando de verdade.
Não me lembro bem, obviamente, mas minha mãe conta que nos primeiros anos da minha vida, meu irmão foi essencial. Ele ajudava com tudo, desde troca de fraldas a ficar me olhando dormir no berço. E adorava. Não tinha ciúmes. Parecia que cultivava o novo amigo que estava por crescer.
As primeiras e mais consideráveis lições foram sobre um esporte o qual aprendi a amar por sua causa. Ele me ensinou a chutar com efeito, com a parte interna do pé, e de “trivela”, o famoso “três dedos”. Na verdade estes fundamentos não são os meus melhores ainda hoje, mas ele o fazia muito bem. Aliás, tenho orgulho de dizer que meu irmão é ambidestro, e que não conheço ninguém que jogue assim. Ele tem o domínio, dribla e chuta com a mesma eficácia tanto com a direita como com a esquerda. Você nunca sabe como ele vai bater na bola. De quebra, como qualidade extra, ele possui uma incrível habilidade no basquete. Roube uma bola dele no basquete e te pago dez “mangos”.
Minha paixão pelo Flamengo foi fomentada por ele. Quantas tardes de Maracanã vivenciamos juntos?
Um senso cultural apurado, me apresentou a boa música. Fã do Arsenal e dos costumes britânicos. Talvez seja uma influência involuntária vinda dos nossos ancestrais. Um galanteador nato. Neste quesito eu perco de goleada para ele.
A diferença de quatro anos na idade só começou a ser sentida na adolescência. Enquanto ele começava a se interessar pelas garotas e freqüentar as matinês eu ainda estava na fase dos carrinhos. Foi o período em que nossas prioridades se desviaram. Mas essa fase não durou muito, e logo estávamos em São Paulo, morando juntos, dividindo um minúsculo Flat em Moema, aonde só havia uma cama de casal a qual tínhamos que dividir. Um cara de quase dois metros de um lado, e eu que não sou pequeno, do outro. E um fazendo massagem no pé do outro. Imaginem a cena. Coisa que só pode ser feita entre irmãos mesmo.
Para relatar nossos momentos, precisaria de um livro. Mas esse cara, de nome Marcelo, meu irmão, me deu muito do que sou hoje. Uma das maiores contas que pago vivendo aqui é a de estar longe dele.
Conheci poucas pessoas na vida as quais não consigo encontrar uma objeção ao descrevê-los. Um deles é o Celo. E quem o conhece dificilmente encontrará alguma característica negativa. Ou melhor, não encontrará.
Encontrou sua forma peculiar de reverter uma situação de vida em que muitos julgavam difícil de ser superada. Sozinho.
Sonhador e passional é daqueles que apostam todas as fichas por um momento incrível. Se por acaso perder, não hesitará em começar de novo, do zero.
Dia 31 para todo mundo é o dia do reveillon. Para mim não, é o aniversário do meu irmão. Ele sempre reclamou de estar sozinho neste dia. Eu sempre lhe disse: não, toda essa festa e fogos são para você. Parabéns.

Bom Café, e Feliz 2010 à todos.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Do inquieto aos acomodados

Tempo de reflexão, de reciclagem de pensamento e projeção de novas metas. Chegou a hora de pedir, de desejar, de sonhar e ter esperança.
Mas antes disso, sugiro que se pergunte: Eu estou feliz com a minha vida?
Sim, não, mais ou menos?
Por mais bem sucedido profissionalmente e pessoalmente, sempre vai haver uma coisinha. Mas não queria tudo. Não é saudável. Afinal o tudo já não será mais tudo quando atingi-lo e aí pode ser que fique frustrado com a sensação de insatisfação permanente.
Em contrapartida, se vive uma vida apenas cômoda, se mexa. A maior armadilha na qual podemos cair é a da acomodação. “Não é o que eu sonhava, mas pelo menos não me oferece riscos.” E os anos passarão como flecha e de repente estará velho demais para tentar recuperar certas coisas.
A vida é muito fugaz para que nos acomodemos com o mediano. Há bilhões de pessoas neste planeta e muitas dela correndo atrás de algo notável. Você se acha pior do que estas pessoas, menos capaz, mais indefeso? Somos todos mortais e pessoas nascidas em ambientes muito mais hostis encontram força para vencer.
Quando pensamos isso nos sentimos até ligeiramente envergonhados não é mesmo?
Portanto, neste final de ano, não espere que o Papai Noel traga todos os seus desejos em sua sacola, e os dê de mão beijada. Na verdade sugiro um pé atrás com o Papai Noel porque pelo que li hoje ele está tão em crise que anda assaltando bancos por aí. Trocadilhos à parte, o que quero dizer é que nós somos os responsáveis pela nossa própria história. Há mecanismos que nos guiam, nos impulsionam até certo ponto, mas de lá, é você quem deve guiar.
Ninguém é tão importante a ponto de ser responsável pela sua felicidade plena.
O risco existe para o mais corajoso, na mesma proporção que para o mais covarde. Viver fugindo do que é arriscado é abdicar da vida.
Não aceite a inexperiência nem a falta de dinheiro, tampouco o medo como obstáculos daqui para frente. São mais artifícios motivadores do que qualquer outra coisa. Ao inexperiente sobra audácia, a quem não possui dinheiro suficiente, sobra determinação para ir atrás do necessário, e o medo deve ser interpretado como juízo. Quem teme respeita, e respeito nunca é demais.
Aos que lêem meus textos, ou estão lendo pela primeira vez, imagino que paire a pergunta: Quem é esse cara para sugerir isto ou aquilo? Não sou um escritor renomado, não sou doutor em nada, e nem pregador de qualquer religião ou seita. Sou um cara comum. Mais comum do que você, provavelmente. Mas veja o lado interessante disso. Não é legal, ao menos diferente, pensar em coisas que um cara comum escreve? Ao menos compartilhamos de situações cotidianas semelhantes. Os exemplos simplesmente se encaixam.
Escrevo aqui há quase um ano, por hobby, e confesso que ainda não estou perto de algo que me satisfaça plenamente. Nem sei se um dia encontrarei isso.
Acho que posso passar a vida atrás e viver procurando me proporciona muita coisa boa. Como estar aqui hoje, nesta cidade linda, tendo visto tudo o que vi e conhecendo tantos que conheci. A busca é compensatória. As experiências ruins neste meio tempo só te engrandecem.
Portanto, em 2010 “mexa seu traseiro gordo” e vá atrás do que quer! Por mais que se ferre todo, ainda sim terá ganhado muito mais.
Todos merecem seus sonhos. Mas ninguém irá te trazer.
Esse texto poderia ser para a próxima Quinta-Feira, 31, mas para mim é um dia mais especial do que o dia da virada.
É o dia do aniversário do meu irmão, e escreverei pra ele.

Bom Café...

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Preconceito enrustido

Quando se fala em Argentina, qual é a primeira coisa que lhe vêm em mente? Ta bom, não fale alto porque pode ser constrangedor, se estiver perto de uma senhora, ou num ambiente público, afinal, sair por aí falando palavrão não é legal. Isto poderia ser roteiro de mais uma piadinha besta sobre nossos “hermanos” argentinos, de fato. Mas minhas palavras hoje vêm em tom de protesto.

Não sou o tipo de pessoa que prega e alimenta preconceitos, na minha utópica visão de Mundo perfeito todos deveriam se gostar e se possível tratar-se como se fossemos parte de apenas um povo. Somos todos homens com as mesmas habilidades e sentidos providos da espécie. Mas a verdade é que a história nos separa numa complexa cadeia de fatores.

E a história tratou de criar entre os vizinhos sul-americanos uma das mais intensas rivalidades mundiais.

Se fosse só futebol tudo bem, apesar de já haver tanta competição envolvendo os dois países, é apenas um esporte, mas a rivalidade transcende o jogo, passa pela política, economia, cultura e por aspectos de socialização.

Nós que vivemos à fronteira entre os dois países sentimos isso com mais clareza. Há brasileiros e argentinos que se comportam mal, que isso seja justamente posto, o que faz parte da educação individual.

Como brasileiro, seria fácil descer a lenha sem base alguma e alimentado por uma rixa que aprendemos desde criança. Não é do meu feitio.

A maioria dos moradores de Foz têm como hábito visitar a feirinha de Puerto Iguazu, freqüentar alguns restaurantes, clubes noturnos ou mesmo abastecer seus veículos naquele país.

Mesmo que seja visível a não cordialidade entre os moradores daqui e os de lá, ambos se beneficiam desta rotina. Diria que no aspecto comercial, apesar de Puerto Iguazu ser uma cidade também turística, eles dependem muito dessa presença do brasileiro e do iguaçuense.

O que é incompreensível é o descarado desinteresse deles ante a nossa presença.

Já não bastassem atitudes estúpidas como fechar a ponte de “pirraça”, dificultar a entrada de brasileiros cobrando taxas estranhas e fazer piada com os tapetinhos verdes os quais tínhamos que limpar nossas “patas” para entrar, o mais sério é o desuso da lei para o brasileiro especificamente.

Há vários relatos de pessoas que estiveram nesta situação.

Agora, o inaceitável é a intolerante violência. Mais uma vez um iguaçuense é espancado a frente de dezenas, covardemente, por seguranças de uma casa noturna bastante freqüentada por brasileiros. A polícia pôs panos quentes, afinal, o segurança era um policial. Queriam levá-lo preso, e senão fosse sua família, sabe lá o que haveria acontecido.

Podem até pensar que o rapaz fez por merecer, o que não foi o caso, mas nenhuma atitude justifica o espancamento. E tenho absoluta certeza de que se fosse um turista americano ou europeu, nada disso teria acontecido.

Aí é que se expõe a rivalidade que muitos acham que fica apenas no futebol e nas piadas.

Agora esta família busca solução para o caso. Como conseguir justiça na Argentina, sendo brasileiro?

Importante que seja dito é que o Brasil não é modelo de justiça, nem de comportamento, há corrupção na política, nos órgãos de proteção ao cidadão, há todo o tipo de violência. Tem muita coisa errada aqui. E como pagamos? Com a má fama e com a exposição negativa. É o mínimo e é merecedor.

Portanto, o mínimo que devo fazer, é dizer que você que é brasileiro, vive em Foz e costuma ir a Puerto Iguazu, pode, um belo dia, ser vítima de um intolerante preconceito e terminar espancado, extorquido, enfim. Você precisa mesmo disso?

Eu prefiro ficar por aqui...



Bom Café.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Informe

Ao pessoal que costuma ler meus textos publicados no jornal, peço desculpas, já que esta semana devido à inúmeros imprevistos, não pude redigir um texto novo.
É a primeira vez em 10 meses de coluna semanal. Espero que seja a única.

Até a próxima semana.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

O início do fim do ano

Brasileiro deixa tudo para a última hora? A maioria sim. Eu faço parte dela. Confesso que não gosto, mas geralmente trabalho sobre pressão. Os textos desta coluna são sempre escritos no último momento. Portanto, peço a compreensão aos que lêem, afinal, é uma atividade paralela a qual faço questão de encontrar espaço para encaixá-la. Uma semana cheia e de muitas preocupações. Não sucumbi a falar de futebol, principalmente neste momento, pelo qual espero ansiosamente. O Domingo será o divisor de águas. Ou eu largo mão de vez, ou fico mais apaixonado pelo esporte.

Reservo meu curto espaço de tempo, e minha cabeça repleta de obrigações, darei um breve "Boas Vindas" ao melhor mês do nosso calendário.

O mês aonde ao menos tentamos esquecer o que há de ruim no cenário atual de nossas vidas. Aonde ganhamos mais, e gastamos mais. Ganhamos presentes, e vemos amigos e familiares distantes.

Se fosses comparar os meses do ano, com os dias da semana, qual deles seria Dezembro?

O início do fim de mais um ano, este primeiro texto do Mês inspira o sentimento cíclico que no toma conta. O sentimento de começo de festa. Por mais que para aqueles que não fazem parte de um calendário sazonal regular, em suas profissões ainda estejam a todo vapor, é inevitável deixar-nos contagiar pelo clima.

Religiosidade à parte, o espírito a qual me refiro é o individual, da auto-reflexão, da análise e dos projetos futuros. Para os que foram mal, a esperança de que tudo será melhor no ano seguinte. Aos que realizaram bons feitos, a sensação de gratidão e a expectativa de que tudo possa ser no mínimo igual.

O Sol vêm, a economia esquenta, o trabalho se torna menos penoso, as pessoas mais sorridentes, e vai por aí... Por mais que saibamos que nos lamentemos que os anos passem e mesmo depois de tantos "Dezembros" felizes e esperançosos, temos o velho e suado ano, não abrimos mão de vivenciarmos a felicidade, pelo menos no último mês do ano. E isso é legal. Nem ligamos para as músicas natalinas repetitivas que tocam em todos os estabelecimentos comercias do país. Talvez faça parte da hipnose necessária para entrarmos no clima natalino. Ou seria uma tática de influência de consumo? Não duvido que haja estudos realizados nessa área. Nesta época costumamos comprar Panetones que duram até Março do próximo ano, e nunca nos perguntamos o por quê. Pode ser a musiquinha.

Voltando ao foco e respondendo à minha própria pergunta acima, eu diria que estamos numa Sexta-Feira. O dia que antecede o fim de semana, que saímos do trabalho e tomamos uma cerveja sem culpa, o dia em que saímos para "festar" à noite, um dia eu diria, sempre eufórico. Como Dezembro, o mês festeiro, que antecede algo que esperamos ser bom, ou melhor do que o que passou. A diferença, ou a vantagem, é que não há meses com cara de "Segundas-Feiras".

Que todos saibam aproveitar este Mês diferente e fugaz. Que em meio aos planos e as festas, as pessoas exagerem na boa conduta, no crescimento do caráter, no fazer bem. É essa harmonia que Dezembro nos proporciona.