quinta-feira, 23 de abril de 2009

Muita fumaça no ar

Anos oitenta e noventa, lembro bem daquelas belas propagandas, pessoas bonitas e felizes, praticando esportes. Era criança e não tinha discernimento para a estranha associação entre práticas saudáveis e o hábito de fumar, apenas gostava dos anúncios publicitários. Hoje penso que era uma ótima estratégia de marketing, afinal, eles não venderiam cigarros mostrando pessoas com câncer ou necrosadas em uma maca de hospital obviamente. As coisas mudaram em alguns países e a tolerância não é mais a mesma. No Brasil, proibiu-se a publicidade, exigiu-se que os fabricantes exibissem frases de alerta quanto ao consumo e fotos chocantes de pessoas que adoeceram pelo uso prolongado, nas embalagens.
Incentivou-se uma cultura por parte da sociedade que reprime as pessoas que praticam o fumo em meio a lugares públicos, fechados ou abertos.
A grande discussão na verdade baseia-se no fato de que as pessoas que não fumam serem supostamente prejudicadas pela fumaça alheia. Há muitos mitos que precisam ser esclarecidos quanto a isso. A exposição mínima dos não fumantes à fumaça dos cigarros não pode ser caracterizada como responsável por grandes conseqüências à saúde destas pessoas, segundo estudos comprovados.
Foi recentemente aprovada na cidade de São Paulo, uma lei que proíbe as pessoas de fumarem em qualquer lugar fechado, incluindo bares, restaurantes, hotéis, enfim, a não ser em casa ou em ritos religiosos. A famosa área para fumantes foi extinta de vez.
A maioria da população não fumante recebe essa notícia primeiramente como um grande passo na luta contra o cigarro. Mas será mesmo?
A lei é confusa. A previsão é punir aos donos dos estabelecimentos e não aos que fumam, ou seja, transfere-se a responsabilidade principal a terceiros, que são passíveis até de multas exorbitantes.
O que interpreto disso tudo é um grande passo atrás na democracia do país. Onde fica o livre-arbítrio? Há informações suficientemente necessárias as pessoas que optam por fumar quanto aos prejuízos à saúde. Esse tipo de combate proposto pelo governo de São Paulo, ao meu entender, só aumenta o preconceito, e não combate o problema. É claro, que em muitos casos não há bom senso por parte de alguns fumantes que simplesmente ignoram o fato de haver pessoas que não são obrigadas a compartilhar do seu hábito, e essas atitudes acabam evidenciando mais o problema, mas já há muitos que respeitam também os espaços coletivos.
Não me parece muito claro o objetivo da medida, uma vez que para os fabricantes, não são impostas resistências que atinjam seus lucros. Sendo mais direto, quero dizer que as pessoas se adequarão às novas imposições e continuarão fumando, consumindo o tabaco. Se o foco é a saúde da população, porque não se proíbe de vez a comercialização do cigarro, ou se estabelece impostos que atinjam consideravelmente os bolsos dos interessados, no intuito de se estimular a redução da produção e do consumo?Talvez porque o governo teria de abrir mão de alguns bilhões de reais pagos pela indústria do tabaco?
Por mais que pareça que sou favorável aos fumantes, ou acho normal convivermos com “baforadas esfumaçadas”, não sou, deixo claro apenas que detesto demagogia. Não posso permitir-me alimentar um sentimento preconceituoso. Acho que há uma imposição comportamental para que excluamos aos fumantes do convívio social.
Aos que alegam invasão à privacidade alheia, o que dizer dos consumidores de bebidas alcoólicas, que saem por aí causando acidentes de trânsito, espancando filhos e mulheres em casa, provocando conflitos em lugares públicos? Isso ao meu entender é semelhante ou até mais grave que o “mal” que os fumantes vêm causando aos outros por aí.
Enquanto isso, nesse mesmo país, sociólogos famosos defendem a legalização da maconha. Há espaço na mentalidade de um povo para ideologias tão distintas?
Acho que ainda há na causa “anti-tabagismo” muita hipocrisia.
Bom café...

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