quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Um homem, sua mente e o mar

Há dias em que simplesmente queremos ficar sós. Quem nunca desejou isso após uma jornada intensa de trabalho, ou num dia de algum desgaste emocional e estresse? Vivemos rodeados de pessoas, cada vez mais, e a interferência desse convívio nem sempre é algo que nos acrescenta algo. Em alguns casos isso é apenas causa de uma distração prolongada que retarda o crescimento intelectual, espiritual e de autoconsciência. O convívio social é essencial a todos, mas o real desenvolvimento do indivíduo está na forma como absorve tudo a sua volta e transforma em valores, em comportamento. O que esperaria de você, sozinho em meio ao mar imenso, com bilhões de estrelas “mudas” te olhando, te cobrando e colocando sua sanidade à prova? É nesse momento que tudo tende a tornar-se claro para o homem. No momento em que se encontra e se questiona.
A forma sutil como o homem, como espécie, é capaz de atingir uma sensibilidade extrema, sem que sequer note. Como é capaz de aprender a valorizar cada forma de vida aqui existente. Realizar que em meio à tão grande mar e abaixo do infinito céu, ele é simplesmente nada como matéria.
Tenho relatos de um homem que conheci em 1988, quando não éramos sequer donos de nossas escolhas.
Nossa primeira paixão platônica foi a mesma menina no colégio. Inocentes como crianças que éramos, e amigos, nos permitíamos dividi-la.
Rodamos o mundo, passamos muito tempo afastados. Mas tudo parece ainda como naquele início da década de noventa.
O Segundo Oficial de Náutica Paul Nuernberg, me relata as condições climáticas, a direção dos ventos e a força das águas. Diz em que costa está, que domínio territorial acabou de cruzar, e me conta as histórias de marinheiro. Lugares lindos, pessoas de diferentes culturas, cervejas mais fortes e mais amargas. Tem o mundo a seus pés, ou melhor, à sua proa.
Mas dois ou três meses longe daqueles a quem ama, do seu lugar de origem, da sua casa... ao longo de alguns anos, é provação transformada em crescimento.
E nós aqui, em terra firme, querendo ficar a sós e desejando o Mundo.
O paralelo traçado entre o que temos e o que queremos geralmente é grande. E é quando nos conhecemos mais, é que descobrimos aonde realmente queremos ir, e estreitamos este paralelo.
As histórias são incríveis. Desde conflitos psicológicos pesados a vários golfinhos te acompanhando viagem. O desespero mental beirando o êxtase da natureza. O “Third” como é chamado a bordo é um baú de enredo literário.
Suas histórias me fazem refletir como a relação entre as pessoas é mesquinha, e como não damos a mínima para nossos próprios questionamentos e anseios.
Passados mais de vinte anos, descobrimo-nos dividindo a paixão da escrita. Seu diário de bordo será transformado em livro um dia. Escreveremos.
Pretendo compartilhar ao menos uma aventura dessas aqui neste espaço.
Se algum de vocês quiserem se exilar por alguns momentos, sentindo-se em meio ao imenso oceano, ou coberto pelos astros luminosos, busquem-no neste blog: http://paulnuernberg.blogspot.com.

E bom café...

3 comentários:

  1. Estou impressionado com o teu poder de expressar tudo isso com uma simplicidade enorme. Uma bela introdução que nos faz refletir sobre a interação com outras pessoas, a proposta de reflexão quando sugere o pensamento de se estar sozinho persuadido pela imensidão do céu e do mar, a narração e análise da inocência do nascimento de nossa amizade assim como a ilustração de meros desabafos pelo msn. Estou realmente surpreso com o teu talento e feliz de estar mais uma vez estreitando os laços contigo, mesmo sabendo que o tempo não tenha mudado nada entre nossa relação, assim como também estar dividindo mais uma vez uma paixão contigo... a da escrita! Muito obrigado por tudo meu amigo.

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  2. Amigo do Paul, amigo meu é. E aliás, devido ao tema (tenho a mesma profissão do "third" em questão), me encaixei perfeitamente, e assim como ele, fiquei impressionado com a capacidade de fazer uma comparação entre homens do mar e homens de terra de maneira tão real, visto que você, autor, é um homem de terra. Entendo o quanto é difícil alcançar os sentimentos que digerimos todos os dias. Parabéns. Visitarei sempre o blog. Saudações mercantes e bons ventos.

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  3. Joana Areias Cavalcante20 de agosto de 2010 às 16:18

    Repito o elogio que há pouco te fiz!
    Sua escrita é dotada de magnetismo, espontaneidade e charme.
    Lindo texto!

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