Qual é o preço de uma piada? Depende de como ela é contada, e de onde ela é contada, certo?
No Brasil a piada vale muito, e vivemos uma época em que nunca se pagou e se investiu tanto em humor.
Tudo bem que se você entrevistar um artista deste segmento hoje, ele vai dizer que batalhou muito, que o meio artístico é para poucos, que a estrada é árdua e eles dificilmente são reconhecidos.
Imagino que deva ser difícil viver da atuação cômica, da piada, do deboche, da palhaçada, principalmente num país de desigualdades sociais bruscas, o que faz com que qualquer tipo de brincadeira possa gerar reações adversas. É contraditório e peculiar, já que brasileiro têm o dom de rir da desgraça, do errado, da corrupção, do bárbaro. Talvez seja uma característica que explique a falta de atitude em relação aos problemas e a fraqueza democrática da massa.
E é neste momento de humor crítico que crescem os grandes comediantes, afinal, eles descobriram uma ótima fórmula de cutucar as mais antigas e “cascudas” mazelas políticas sociais do país. Se até hoje a sociedade não consegue saciar-se de justiça aos corruptos, ao menos tem o prazer de vê-los em uma “sinuca de bico”, eu “beco sem saída”, desmoralizados e ridicularizados em rede nacional.
Os rapazes de terno que correr a produzir matérias sérias, transferem a graça que os maus políticos acham de suas “traquinagens” para o vexatório e mudo inexplicável dos mesmos ante a câmera. Que estas reportagens não resultem em providências imediatas, mas já é um grande dever democrático prestado. Nós podemos ver e conhecer o que imaginamos que acontece e quem os faz. Aliás, nada melhor que ano de eleições para nos enchermos de informação, afinal até aonde sabemos, só nosso voto pode mudar alguma coisa.
Não é propaganda a este ou aquele grupo de artistas, até porque a quantidade de patrocínio que estes atuais programas obtêm é absurda. Nem sempre eles são geniais, o que é compreensível. Inúmeros artistas e suas comédias em pé usam a graça como instrumento de indagação e por isso se arriscam mais. Seus públicos pedem cultura e suas piadas necessitam de cultura para sua compreensão. Mas a simplicidade aparente dos temas abordados é justamente o segredo. Falar de coisas do cotidiano sem tabus, relacionamento, política, racismo e religião, por exemplo, sem se prender a falsos princípios, cria uma relação de proximidade com público que se vê em muitas daquelas situações.
Até mesmo o humor banal descobriu uma forma de se consolidar. Fazer o que qualquer um teve vontade de fazer um dia, expor personalidades arrogantes, fazer perguntas jamais feitas, caçoar do galã e da musa e mostrá-los que apesar de toda fama e dinheiro, são pessoas normais. Tirar um pouco do glamour. Uma forma de igualdade de status social.
A forma como se produz tais programas, sem scripts, sem um aparente planejamento nas reportagens, são marcas da espontaneidade.
E o público cansou da informação pré-fabricada, do “fale o que eu te pago para falar”. Além do que quanto mais acesso à informação, mais sedento por questionamentos. Assim, o humor independente vem batendo a formalidade e se tornando muito mais produtivo do que muito material dito séria.
Palmas para os bobos.
Bom Café...
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