Todos estavam errados, sem exceção.
Pronto, essa é a minha opinião final quanto ao episódio fatídico envolvendo um jovem filho de uma famosa artista brasileira.
O primeiro e mais concreto argumento é que o túnel estava fechado. Fechado para carros, fechado para pedestres, ciclistas, skatistas, equilibristas, macumbeiros, ou qualquer outro tipo de indivíduo não pertinente à lei ou ao órgão responsável pelo fechamento do mesmo, como a CET Rio.
Esporte considerado radical, por não ser considerado algo tradicional, é associado por muitos à rebeldia e a uma forma independente de expressão, culturalmente falando. No exterior, usa-se o termo extreme, ou somente X, para esportes com grau de dificuldade elevado e de alto risco.
Quem anda de skate, já andou, ou conhece pessoas que praticam, sabe do risco de lesão. Há poucos lugares específicos para a prática do esporte e na verdade, a modalidade street, pede que se ande e se realize as manobras nas ruas, calçadas e nos vários obstáculos urbanos.
Aonde quero chegar? Tanto o rapaz quanto amigos e família, sabiam que ele andava de skate e não podem alegar que desconheciam o risco.
Quanto ao veículo que atropelou o jovem e seu condutor, noticia a mídia que era um homem de classe média alta, ou seja, da mesma camada social da vítima, e praticava um racha, ou pega, com seu amigo, no túnel fechado. Errado? Sim, muito. Mais errado ou menos errado que a vítima? Vai de cada um de nós interpretar. Tudo bem que apostar corrida em via pública não é esporte, mas há quem possa dizer que andar de skate em via pública também não é.
Uma das coisas que me incentivou a escrever foi um discurso de um famoso cronista em horário nobre no mais famoso telejornal. Sempre gostei das opiniões dele. Mas a hipocrisia que se criou ao entorno deste episódio e a capacidade que a imprensa tem de transformar sua opinião coletiva, pura e tão somente pelo fato de ser um filho de uma famosa atriz da mesma emissora, me revoltam. Qualquer outro jovem poderia ser chamado de vagabundo ou drogado por estar andando de skate num túnel fechado às 2 da madrugada e não haveria todo essa comoção nacional que não passa do sensacionalismo barato que se vende há tempos. Uma novela subsidiada pelo choque e sofrimento. Os telejornais têm reservado 50% dos seus programas para esta matéria, e nem 1% para coisas sérias como a Operação Tapete Persa que prendeu cerca de 20 pedófilos em um dia no Brasil. Eu sofro muito ao saber que crianças indefesas estão nesse momento sendo violentadas por “monstros” ao longo do país. Precisamos caçar mais desses “monstros”. Há um intencional e evidente desvio de atenção.
Já escrevi aqui nesta coluna sobre o quanto é violento o trânsito neste país. Não defendo nenhum dos lados. Acho que a família e amigos estão profundamente tristes, e a carismática atriz, neste caso é apenas uma mãe que sofre pela perda do filho, como qualquer mãe naturalmente o faz.
Agora cobrar justiça, cobrar mudanças nas leis de trânsito, fazer campanha nacional e discurso moralista, me parece tarde. Muitos jovens já morreram incógnitos neste país em condições muito mais cruéis, injustas e brutais, e nem eu, nem você e nem ninguém ouviu sequer um “a” da mídia.
Bom café...
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