Tenho certeza que todos nós já tivemos, pelo menos uma vez na vida, a vontade de mandar o chefe para algum destino abstrato. E a diferença entre ter essa vontade e concretizá-la é abissal. Principalmente no que diz respeito às conseqüências. Se for realmente fazer isso, tenha em mãos um currículo atualizado e alguns bons contatos.
A não ser que ... A não ser que você seja uma grande promessa do futebol brasileiro e jogue no Santos Futebol Clube. Nesse caso, faça o que lhe der vontade, afinal, és intocável.
Brincadeiras à parte, por enquanto, o assunto do momento é o moleque travesso da Vila Belmiro, aquele de nome unissex e cabelo de rabo de quati.
Tido como uma das grandes revelações do futebol nacional nos últimos anos, e com a fugaz e super valorização, num esporte cada vez menos esporte e muito mais negócio, o menino é hoje o spot da mídia, tendo mais espaço, pasmem que assuntos sérios como as traquinagens na Casa Civil pré-eleições. É verdade que não é surpresa nenhuma o futebol ter prioridade para a maioria dos brasileiros. Aliás, retificando, o futebol é tudo na vida de um cidadão tupiniquim quando seu time está nas cabeças, e nada quando está prestes a ser rebaixado. O sujeito chega a padaria de manhã após a goleada sofrida pelo seu time e diz: “Nada, nem estava assistindo, tinha que acordar cedo para o trabalho, tenho coisas mais importantes para fazer nessa vida rapaz”... E na final do campeonato paga uma excursão para ir ver seu time a mais de 800 quilômetros de distância num ônibus velho e sem ar, com um monte de homem fedorento, deixando a mulher em casa e arrumando uma folguinha suada com o chefe no dia seguinte. E “neguinho” continua de travessura na Casa Civil.
Mas deixa eu voltar ao caso do rapaz que mandou seu superior tomar suco de caju na semana passada, na frente de milhares de torcedores, e de milhões de telespectadores.
Tirando as conseqüências de toda a história, com a suspensão do rapaz pelo técnico, com intuito de repreender e demonstrar autoridade, seguido de sua demissão e tudo o que já se conhece, o fato é que há realmente uma distorção de valores na relação do jovem com o Mundo real.
No caso dele, nem dá para dizer que ele cresceu na pobreza e ascendeu muito depressa. Foi criado em família de classe média, e sempre com a presença dos pais. Pai ex-jogador que criou o filho dentro do Santos. Menino que viu um futebol já muito mais voltado para o marketing do que propriamente para o jogo, que com 18 anos ganha um salário de 6 dígitos antes da vírgula à direita, e que não joga nem 1/10 dos craques que vi jogar na minha humilde existência. Muitos podem me contrariar, mas meus argumentos são simples e baseados em números, em história concreta. Esses driblezinhos sem objetivos que ele dá, os moleques aqui da rua dão todo dia na “peladinha” de fim de tarde, e nesse Brasil adentro, deve haver vários outros muito mais habilidosos e até melhores tecnicamente, que nunca terão a oportunidade que este menino está tendo.
Um sacrilégio vê-lo postar em seu twitter que “está cansado de tudo”. A maioria dos jovens de 18 anos com a mínima instrução neste país, a esta altura da vida profissional, ganha um salário mínimo e meio mais vale transporte, trabalha todo dia 8 horas e pega condução lotada, para no final do mês não sobrar quase nada.
Este certamente seria o destino deste garoto se não houvesse quem lhe apresentasse o caminho do futebol, e alavancasse sua carreira.
Sobre o treinador e a decisão do clube, é óbvio que a instituição com administração amadora de modelo empresarial vai dar prioridade ao seu produto de maior investimento. Por mais que a tendência do resultado em campo seja o decréscimo, a venda do jogador num futuro próximo por cifras inimagináveis será mais importante do que qualquer título que puder ser conquistado.
É um paradoxo com o qual os clubes têm que conviver cada vez mais. Empresa visa lucros. Agremiação futebolística visa conquistas desportivas.
Quem perde são os que gostam do espírito lúdico do esporte.
Bom café...
Nenhum comentário:
Postar um comentário