Você é dono de uma empresa e mantém um quadro razoável de funcionários a um custo elevado, em condições adequadas ou até acima da média da realidade atual, e obtêm um desempenho aceitável anual em relação às expectativas. Em determinado momento resolve incentivar seus funcionários a um resultado acima do esperado e se surpreende com a capacidade dos mesmos. Deram mais de si, se empenharam, demonstraram uma capacidade muito maior daquela que você conhecia e estava acostumado. A que conclusão você chega? Seus funcionários trabalham na “meia-boca” apenas com seu salário que já é muito bom? Não seria sua remuneração suficiente para que dessem tudo de si? Seriam eles corruptos?
Aonde quero chegar? Entendo que uma empresa com uma política de incentivo, inclusão dos colaboradores nas cotas de lucro, remuneração satisfatória, obtêm resultados melhores.
Agora transfira este raciocínio ao futebol. O assunto do momento são as “malas-brancas”, os “bichos” e seus efeitos no desempenho dos times e jogadores. Sabe-se que os valores que envolvem grande parte dos profissionais da elite do futebol brasileiro são irreais ante a maioria dos outros profissionais do país. Um jogador mediano, semi-analfabeto ganha mais do que um médico.
Estes mesmos jogadores são funcionários do clube pelo qual jogam. O trabalho deles, na teoria, é entrar em campo e ir em busca da vitória, objetivo claro do jogo. Porém, o ano já está no fim, a empresa (neste caso o clube) já atingiu suas pretensões anuais, e os funcionários (jogadores), já não tem motivação para jogar e ir em busca da vitória. Raciocinemos. O jogador (funcionário) está sem motivação para ir atrás do seu objetivo, que é a vitória no jogo. Mesmo assim, seu salário “astronômico” continua sendo depositado em sua conta corrente. Mas isso não é mais suficiente. Agora, para que ele desenvolva o seu trabalho com o mínimo de eficiência, é necessário que entre um “extra”. Veja bem, a pessoa começa a desempenhar seu trabalho de forma desleixada, e ao invés de ser multada por isso, ela ganha mais?
É isso que acontece no futebol. Esporte que envolve muito dinheiro, e por outro lado envolve muito sentimentalismo por parte das pessoas que o acompanham.
Corrupção, como em vários outros segmentos político-econômicos deste país.
O pagamento de incentivo de um clube a outro para que o mesmo endureça a partida contra um adversário indireto, é de certa forma, manipulação de resultados. Não é dever de todo o time de futebol, entrar em campo para defender sua instituição, sua empresa. O clube que entra sem esta obrigação básica é de alguma forma cúmplice de manipulação, uma vez que o resultado de seu jogo interfere em todo o resultado final do campeonato.
E outra, um clube sem maiores pretensões que recebe tal “incentivo” para jogar com seriedade contra determinado adversário, pode muito bem aceitar dinheiro para jogar com mais desinteresse ainda. E não há um mecanismo que coíba tal prática. A lei não é muito clara e sempre há brechas.
Sabe-se que isso ocorre há anos, e nada é feito. Desta forma, todo o brilho de uma conquista, todo o empenho dos jogadores durante o ano, de nada valem uma vez que os mesmos se desvirtuam de suas obrigações esportivas em prol de benefícios alheios ao esporte.
Além de tudo isso, há ainda a conotação preconceituosa em relação às malas.
A mala preta que seria a ilegal, e a mala branca a qual julgam não haver nada de errado. Independentemente das cores das malas e das notas que vão dentro delas, quem perde mais são os que gostam do esporte.
E a culpa é do caráter corrupto e ganancioso do brasileiro em geral.
A maioria responderia positivamente a um incentivo extra em qualquer atividade que exerça, sendo ilegal ou não, enquanto que dar o máximo de si em seu trabalho não passa de uma obrigação.
Bom café.
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